Há cerca de vinte anos, estive na comunidade de Umbuzeiro, no município de Uauá, Bahia. Ali conheci uma figura ímpar dos sertões: o senhor Eduardo. Sentado em um banco de craibeira, na companhia de seus netos, ele carregava no olhar a serenidade de quem conhece profundamente a vida e suas durezas.
Naquela conversa simples, mas marcante, seu Eduardo me falou dos desafios de viver no sertão, da labuta diária, do trabalho árduo e das dificuldades enfrentadas, sobretudo pela juventude de Umbuzeiro, no acesso à educação, à saúde e às condições básicas de bem-estar.
Localizado na região de Santana, às margens do rio Vaza-Barris, no oeste de Uauá, Umbuzeiro guarda uma história rica e, ao mesmo tempo, pouco visibilizada. Seu Eduardo relatou suas origens ligadas aos povos africanos, cujos ancestrais, ainda no início do século XIX, ocuparam áreas como Umbuzeiro, Sítio do Meio, Sítio do Zacarias e Paredão do Lô. Nesse processo, houve também a miscigenação com povos originários, formando uma identidade plural e profundamente enraizada no território.
Umbuzeiro representa uma das poucas comunidades com remanescentes afrodescendentes no município de Uauá, um patrimônio vivo que resiste ao tempo, às dificuldades e ao esquecimento.
Na imagem de seu Eduardo com os netos, há um símbolo poderoso do sertão, a continuidade da vida, da memória e da ancestralidade. Somos, afinal, um povo formado por múltiplas origens, dos povos originários aos vaqueiros de ascendência ibérica, passando pelos africanos trazidos à força pela coroa portuguesa. Dessa mistura nasceu um sertão diverso, rico em cultura, religiosidade, saberes e modos de viver.
Essa diversidade, sob o olhar antropológico, é uma grande riqueza. No entanto, também revela um histórico de desigualdades e exclusões. Ao longo do tempo, comunidades como Umbuzeiro enfrentaram sérios problemas estruturais, especialmente no acesso à educação e à saúde, o que contribuiu para o aprofundamento das desigualdades sociais.
Diante disso, é urgente pensar em uma reparação histórica, não somente simbólica, mas concreta, capaz de reposicionar comunidades como Umbuzeiro, Sítio do Zacarias, Sítio do Meio, Maria Preta, Cocobocó, Algodões, Barra da Fortuna, Caititus, Bendegó da Pedra, Fidélis, Boa Vista do Silvano, entre tantas outras que carregam heranças indígenas e africanas.
Valorizar essas comunidades é reconhecer sua importância na formação do sertão e do Brasil. É também garantir que suas futuras gerações tenham acesso digno às oportunidades que historicamente lhes foram negadas.
Foto e texto: Robson Rodrigues

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