Antes de qualquer manifestação cultural, musical ou poética, ao falarmos da música no sertão, é necessário voltar o olhar para o próprio nome de nossa cidade: Uauá.

 

Para a maioria das pessoas, Uauá significa “terra dos vagalumes” ou “pirilampo”. Alguns pesquisadores defendem que a palavra tenha origem no tronco linguístico tupi. Entretanto, quando aprofundamos a pesquisa, percebemos que essa explicação talvez não encerre toda a história. O nome Uauá, assim como tantos outros topônimos do sertão, parece guardar vestígios de idiomas falados por povos originários que desapareceram ou foram profundamente transformados durante o processo de colonização do Grande Sertão brasileiro.

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Palavras como Caratacá, Curundundum, Cocobocó, Quembrem-guenhem, Macururé, Massacará, entre muitas outras, permanecem vivas na fala do sertanejo. São palavras que atravessaram séculos, resistiram ao tempo e continuam sendo pronunciadas diariamente, embora seus significados originais tenham, em muitos casos, se perdido. Não aparecem na maioria dos dicionários e raramente são objeto de estudos aprofundados, mas seguem existindo como testemunhas silenciosas da presença dos primeiros habitantes desta terra.

 

Independentemente de seus significados, existe um aspecto comum que chama a atenção: a sonoridade. São palavras carregadas de ritmo, de repetição de sílabas, de musicalidade natural. É como se o próprio idioma tivesse sido moldado pelos sons da caatinga, pelo canto das aves, pelo vento atravessando as serras, pelo correr das águas temporárias e pelos ecos das pedras.

 

Essa observação nos leva a uma reflexão fascinante. Talvez as primeiras manifestações musicais do sertão não tenham sido instrumentos, cantos ou danças, mas a própria forma de falar de seus povos originários. Antes do pífano, da sanfona, da viola ou do aboio, já existia uma música escondida nas palavras, nas inflexões da voz, nas narrativas contadas ao redor das fogueiras e na maneira como cada povo nomeava os elementos da natureza.

 

A música, portanto, pode ter surgido muito antes daquilo que hoje compreendemos como música. Ela já existia na oralidade, na comunicação cotidiana e na profunda relação entre o ser humano e a paisagem sertaneja.

 

É justamente dessa herança sonora, enriquecida posteriormente pelos aboios dos vaqueiros, pelos cantos africanos, pelas rezas populares e pelas tradições religiosas, que começará a nascer a identidade musical de Uauá.

 

No próximo artigo, continuaremos esta série sobre a breve história da música em Uauá, acompanhando o encontro dessas diferentes culturas e o surgimento das primeiras manifestações musicais organizadas em nossa terra dos vagalumes.

 

Texto e foto: Robson Rodrigues