A distribuição das barracas da agricultura familiar cedidas pela Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR), vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR) do Governo da Bahia, está sendo alvo de questionamentos e denúncias por parte de alguns feirantes tradicionais de Uauá.
Durante a semana passada e também no dia da inauguração do novo pátio coberto da Feira Livre, a reportagem do Portal Robson Uauá recebeu relatos de pequenos comerciantes que participam da feira há mais de 20 anos e que afirmam não terem sido contemplados com as barracas destinadas ao fortalecimento da agricultura familiar e dos pequenos empreendedores.
Entre os denunciantes estão agricultores familiares, vendedores de hortaliças, artesãos, floricultores, viveiristas, produtores de doces e outros trabalhadores que há décadas comercializam seus produtos na feira livre do município.

Barracas vazias e questionamentos sobre os critérios
Além dos relatos dos feirantes, a reportagem constatou que diversas barracas permaneceram vazias durante a feira, identificadas apenas com o nome de seus respectivos beneficiários. Segundo os denunciantes, isso levanta dúvidas sobre os critérios adotados para a distribuição das estruturas, já que feirantes tradicionais continuaram trabalhando sem barraca ou fora da área coberta.
Também foram encaminhadas à redação denúncias de que pessoas que nunca haviam participado da feira teriam sido contempladas com barracas e espaço privilegiado no novo pátio, enquanto trabalhadores históricos ficaram de fora.
Há ainda relatos de que alguns comerciantes receberam várias barracas para acomodar seus produtos, ao passo que pequenos produtores e artesãos permaneceram sem acesso ao benefício.

Feirantes tradicionais relatam prejuízos
Entre os casos relatados está o de Xique-Xique, comerciante conhecido pela venda de espetinhos e de artefatos para propriedades rurais, como cancelas e cocheiras. Segundo ele, foi impedido de permanecer no novo pátio coberto e transferido para uma área periférica da feira.
Outro exemplo citado é o de seu Estevão, da comunidade de Serra Grande, que, mesmo após mais de 25 anos participando da feira, continuou comercializando seus produtos diretamente no chão, sem barraca.
Vendedores de flores, mudas de plantas e artesãos que trabalham com palha e couro também afirmam não ter recebido as estruturas.
Promessa feita aos feirantes
Segundo diversos comerciantes ouvidos pela reportagem, antes do início das obras de cobertura da feira, servidores da Prefeitura de Uauá, identificados com crachás do setor de Tributos, realizaram um cadastramento dos feirantes e informaram que todos aqueles que ocupavam regularmente o espaço seriam acomodados no novo pátio após a conclusão das obras.
Entretanto, de acordo com os relatos, essa promessa não foi cumprida.
A reportagem também ouviu o atual responsável pelo setor de Tributos. Segundo os feirantes, ao ser questionado sobre o cadastramento realizado anteriormente, ele afirmou que aquele entendimento “ficou no passado” e que a organização da feira seria conduzida conforme os novos critérios adotados pela gestão atual.
Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Uauá se pronunciou negando qualquer participação no recebimento ou na distribuição
Durante toda a semana de apuração, a reportagem não identificou representantes do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Uauá acompanhando a distribuição das barracas.
Posteriormente, em contato com um dos diretores da entidade, este afirmou que o sindicato não recebeu as barracas e não participou da escolha dos beneficiários, declarou que a CAR estaria utilizando o nome da instituição sem autorização para justificar a cessão das estruturas.
Nota oficial da CAR
Em resposta aos questionamentos enviados pelo Portal Robson Uauá, a Assessoria de Comunicação da Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR/CAR)
informou:
“As barracas foram disponibilizadas pela Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR), vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR), por meio de instrumento de cessão de uso ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Uauá, a partir de uma demanda apresentada pelos feirantes do município.
O Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Uauá ficou responsável pela organização da distribuição e indicação dos usuários das estruturas, mediante relação dos feirantes definida pela própria entidade.
Dessa forma, os procedimentos relacionados ao levantamento, à indicação e à definição dos feirantes que utilizariam as barracas foram conduzidos pelo sindicato, responsável pela gestão da cessão de uso.
A SDR/CAR permanece à disposição para prestar os esclarecimentos relacionados aos procedimentos institucionais adotados para atendimento às demandas apresentadas pelas organizações representativas dos trabalhadores rurais e municípios.”
Contradições permanecem sem esclarecimento
As declarações da CAR contrastam com a informação prestada por um diretor do próprio Sindicato dos Trabalhadores Rurais, que negou ter recebido as barracas ou participado da definição dos beneficiários.
Até o momento, a reportagem não identificou a realização de reuniões públicas promovidas pela Prefeitura de Uauá ou pelo sindicato para apresentar critérios, ouvir os feirantes ou discutir a distribuição das estruturas.
A ausência de informações transparentes sobre o processo, somada aos relatos de exclusão de feirantes tradicionais e às divergências entre as versões apresentadas pelos envolvidos, reforça a necessidade de esclarecimentos por parte dos órgãos responsáveis.

Prefeitura ainda não respondeu
Até o fechamento desta reportagem, a Prefeitura Municipal de Uauá não havia encaminhado resposta aos questionamentos enviados pelo Portal Robson Uauá.
A equipe de reportagem retornará à Feira Livre na próxima segunda-feira para verificar novamente a ocupação das barracas e continuará acompanhando o caso.
O espaço permanece aberto para manifestações da Prefeitura de Uauá, do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Uauá, da CAR e de qualquer pessoa citada na reportagem, em respeito aos princípios do contraditório, da ampla defesa e do interesse público.
Da Redação
Robson Rodrigues

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