Levantamento realizado em 7 de agosto percorreu áreas rurais da comunidade de Bom Conselho e registrou pinturas rupestres, formações graníticas, caldeirões naturais, fauna e flora da Caatinga

 

Uma expedição de campo realizada na última sexta-feira, 7 de agosto de 2026, na comunidade de Bom Conselho, interior de Uauá, revelou novos elementos do patrimônio arqueológico, geológico e ambiental do município. A equipe percorreu áreas próximas ao Riacho do Ferro, propriedades rurais e os serrotes da região, realizando registros fotográficos, coleta de coordenadas geográficas, observações de campo e coleta de algumas amostras geológicas.

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A atividade teve início às 7h26, com saída do Eco Sítio dos Passarinhos. O percurso até Bom Conselho passou pela BR-235, pela entrada da Fazenda Boa Vista do Inácio e por estradas vicinais em direção à região de Lagoa do Pires e do Riacho do Ferro. As condições precárias da estrada fizeram com que a equipe chegasse à comunidade somente às 9h20.

 

Recebidos pelo morador Pedro Silva e sua família, os pesquisadores iniciaram o reconhecimento da região, utilizando também informações fornecidas pelos moradores sobre antigas formações rochosas, fontes de água e locais onde existiam registros rupestres.

 

Três pontos com pinturas rupestres são documentados

 

Um dos principais resultados da expedição foi o registro de três pontos contendo pinturas rupestres na região de Bom Conselho.

O primeiro foi o Caldeirão Novo, localizado nas coordenadas -10.010254, -39.417151. O painel está associado a um grande afloramento granítico de aproximadamente quatro metros de altura, seis metros de comprimento e 3,5 metros de espessura.

Na superfície da rocha foram observados grafismos predominantemente vermelhos, incluindo traços, pontilhados e formas geométricas. Também foram identificados possíveis vestígios de pinturas bastante desgastadas.

Outro ponto documentado foi a Pedra da Enjeitada Velha, nas coordenadas -10.000605, -39.427046. O local reúne dois afloramentos graníticos separados por aproximadamente dez metros, ambos contendo pinturas rupestres predominantemente vermelhas.

Segundo relatos obtidos durante a visita, os moradores da comunidade não tinham conhecimento de que aquelas marcas constituíam possíveis registros rupestres. O estado aparente de conservação dos painéis foi considerado bom, embora uma avaliação arqueológica especializada seja necessária para determinar sua natureza, cronologia e estado de conservação.

Pedra do Letreiro chama atenção pela quantidade de grafismos

O terceiro local, denominado Pedra do Letreiro, está localizado nas coordenadas -10.006105, -39.421289, na propriedade de Pedro Silva.

O painel principal possui aproximadamente 4,80 metros de comprimento por 3,40 metros de altura e apresenta grande quantidade de grafismos em tons vermelhos e alaranjados.

 

Entre os desenhos observados estão círculos, formas ovaladas, pontilhados, linhas e conjuntos de pequenos círculos. Um dos grafismos possui linhas radiais que, visualmente, lembram a representação de um sol — interpretação apenas descritiva, uma vez que o significado original das pinturas não pode ser determinado sem estudos arqueológicos.

 

De acordo com a família proprietária, a denominação “Pedra do Letreiro” é tradicional e estaria relacionada à aparência de alguns dos desenhos, que lembrariam letras ou sinais escritos.

O local, segundo a equipe, apresenta potencial para se tornar um dos mais importantes conjuntos de arte rupestre conhecidos na região de Uauá, mas necessita de proteção e estudos especializados.

 

Uma paisagem onde arqueologia e geologia se encontram

 

Além das pinturas rupestres, a expedição identificou uma grande diversidade de formações geológicas.

A região está inserida em um contexto geológico de elevada complexidade, relacionado ao embasamento cristalino do Cráton do São Francisco. Estudos do Serviço Geológico do Brasil apontam a presença regional de unidades arqueanas do Complexo Santa Luz, incluindo a Unidade Lagoa do Pires e a Unidade Pedra d’Água.

A Unidade Pedra d’Água é particularmente relevante por apresentar rochas metamáficas e metaultramáficas, enquanto a região também possui importantes ocorrências de rochas granitoides e gnáissicas.

Durante a expedição foram observados afloramentos de granitoides, veios aparentemente pegmatíticos, quartzo, feldspatos, biotita e outros minerais e estruturas que ainda precisam ser analisados em laboratório.

A equipe também realizou uma análise preliminar de imagens de satélite, associada às observações de campo e dados bibliográficos, identificando aproximadamente 23 estruturas que aparentam corresponder a afloramentos rochosos. A classificação definitiva dessas estruturas, entretanto, dependerá de estudos petrográficos, mineralógicos e geocronológicos.

 

Caldeirões de pedra revelam outra dimensão da paisagem

 

Outro destaque da expedição foram os caldeirões naturais de granito, depressões formadas nas próprias rochas capazes de acumular água durante o período chuvoso.

Foram registrados, entre outros, o Caldeirão de Pedras da Enjeitada Velha, nas coordenadas -10.001059, -39.427534, e o Caldeirão de Pedras da propriedade Pedro Silva, localizado em -10.007700, -39.420908.

Também foi documentado o chamado Caldeirão de Pedra Novo, uma formação natural com aproximadamente oito metros de profundidade, 1,5 metro de largura e seis metros de comprimento.

Essas estruturas possuem importância não apenas geológica e paisagística, mas também histórica. Os moradores relatam que os caldeirões são utilizados tradicionalmente como fontes de água e que algumas dessas estruturas estão associadas a antigas cercas de pedra.

As informações sobre a utilização dos locais por populações antigas e sobre a construção das cercas por pessoas escravizadas fazem parte da memória oral local e poderão ser objeto de futuras pesquisas históricas e arqueológicas.

 

Água e atividades rurais

 

A expedição também registrou informações sobre os recursos hídricos subterrâneos da região.

Na propriedade visitada existem pelo menos dois poços. Segundo o proprietário, um deles apresenta água percebida como mais “pesada”, enquanto a água do segundo é considerada menos salobra, porém com menor vazão.

Moradores relatam que em alguns pontos da região é possível encontrar água subterrânea antes dos 20 metros de profundidade.

A equipe ressalta, entretanto, que a qualidade e a composição química dessas águas somente poderão ser determinadas por análises laboratoriais, que deverão avaliar parâmetros como condutividade, pH, sólidos dissolvidos, dureza, sódio, magnésio, cálcio e outros elementos.

A propriedade visitada mantém atividades típicas do semiárido, incluindo caprinovinocultura, bovinocultura e pequenas plantações de milho, abóbora e melancia.

 

Caatinga preservada completa o patrimônio

 

O patrimônio encontrado não se limita às pedras e às pinturas.

No entorno da Pedra do Letreiro e dos demais afloramentos foram observadas espécies características da Caatinga, entre elas umbuzeiro, angico, baraúna, umburana, araticum, pau-de-pedra, alecrim, mandacaru e xique-xique.

Também foram registrados ou relatados animais como mocós, preás, aves de rapina, socó-boi, gato-mourisco e tatus.

A combinação entre os afloramentos rochosos, os caldeirões naturais, os cursos temporários de água, a vegetação nativa e os registros arqueológicos forma uma paisagem de elevado interesse científico e ambiental.

 

Patrimônio que precisa ser conhecido e protegido

 

Para a equipe responsável pela expedição, os resultados demonstram que Bom Conselho possui potencial para pesquisas envolvendo arqueologia, geologia, biologia, história, geografia e educação ambiental.

A região também apresenta possibilidades para o desenvolvimento futuro de atividades de turismo científico, geoturismo, educação patrimonial e trilhas interpretativas, desde que qualquer iniciativa seja realizada de forma responsável e com autorização dos proprietários das áreas.

Um dos principais desafios é justamente garantir que o interesse crescente pelos locais não resulte na degradação das pinturas rupestres ou das formações naturais.

Os responsáveis pela expedição defendem que o primeiro passo deve ser o registro, estudo e proteção dos sítios antes de qualquer processo de exploração turística.

“Conhecer é o primeiro passo para preservar. E preservar é garantir que as próximas gerações possam conhecer aquilo que a natureza e os povos que nos antecederam deixaram como testemunho de sua existência.”

A Expedição Bom Conselho teve apoio do Mercadão dos Óculos, Pousada Talita, Limpa Mais Produtos de Limpeza.

 

Texto e pesquisa: Robson Rodrigues

Vídeos: Adriana Ferreira

Assistentes de produção: Olavo e Álvaro

Apoio local: Pedro Silva e família

Veja mais fotos e vídeos no Instagram @robson_uaua.

Contato para apoio às próximas expedições: (74) 99928-0883.