Comunidade cobra esclarecimentos das autoridades e pede investigação sobre intervenções que teriam ocorrido na área; dados da ANM apontam autorização de pesquisa mineral para cobre, mas não identificam, até o momento, concessão de lavra
A comunidade de Serra da Besta, localizada na região oeste do município de Uauá, Bahia, denunciou possíveis intervenções relacionadas à atividade mineral no cume da Serra da Besta. O relato chegou ao nosso portal na última sexta-feira, 7 de agosto de 2026, acompanhado de registros feitos por moradores que estiveram no local para verificar a situação.
Segundo os denunciantes, durante a semana foram ouvidas diversas explosões vindas da região do cume da Serra da Besta. Diante da preocupação, moradores se organizaram no final de semana e subiram a serra para verificar o que estaria acontecendo.
De acordo com os relatos, foram encontradas no local marcas que os moradores associam ao uso de explosivos, rochas quebradas e diversas marcações na cor azul em árvores e rochas. Os moradores também afirmam que algumas árvores teriam sido cortadas para a realização dessas marcações.
As circunstâncias dessas intervenções ainda precisam ser esclarecidas pelos órgãos competentes.
Comunidade cobra providências
Diante da situação, a comunidade de Serra da Besta divulgou uma nota pública solicitando a atuação da Prefeitura Municipal, da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, dos órgãos de fiscalização ambiental, do Ministério Público e de outras instituições competentes.
Na manifestação, os moradores afirmam repudiar qualquer intervenção realizada no território sem transparência, diálogo e acompanhamento dos órgãos responsáveis.
A comunidade defende o direito dos moradores de conhecer, acompanhar e participar das decisões que possam afetar o território, o patrimônio natural e a própria dinâmica de vida local.
“A Serra da Besta tem povo. A Serra da Besta tem história. A Serra da Besta tem patrimônio. E a Serra da Besta precisa ser protegida.”
A comunidade também solicita que os poderes Executivo e Legislativo Municipal viabilizem uma audiência pública, permitindo que moradores, representantes do poder público, órgãos ambientais e eventuais empresas envolvidas possam prestar esclarecimentos sobre a situação.
Portal procurou autoridades
Nossa reportagem encaminhou questionamentos às contas oficiais da Prefeitura Municipal de Uauá e, até o fechamento desta matéria, não havia recebido resposta.
Também solicitamos esclarecimentos ao Conselho Municipal de Meio Ambiente de Uauá sobre a existência de atividades de pesquisa ou exploração mineral na Serra da Besta. Até o momento da publicação, não recebemos resposta.
Em contato com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, o órgão informou que, até aquele momento, não havia recebido comunicação oficial da comunidade de Serra da Besta sobre os fatos relatados.
A ausência de respostas dos demais órgãos não significa, necessariamente, que não existam providências em andamento. O portal permanece aberto para receber esclarecimentos e atualizar esta matéria.
O que consta nos registros da ANM?
A reportagem também realizou uma consulta aos dados disponíveis da Agência Nacional de Mineração (ANM) e identificou o Processo Minerário nº 870.990/2018, em nome da empresa SM5 Participações Ltda., abrangendo uma área de aproximadamente 1.138,21 hectares no município de Uauá, tendo como substância mineral pesquisada o cobre.
É importante fazer uma distinção: autorização de pesquisa mineral não é o mesmo que autorização para exploração ou lavra.
Os dados consultados indicam que houve Autorização de Pesquisa concedida em 2019, permitindo a realização de estudos destinados a verificar a existência e a viabilidade econômica do minério na área.
Também consta no processo a apresentação, em 2020, de um Relatório Final de Pesquisa, cuja aprovação teria sido negada pela própria ANM.
O alvará de pesquisa, originalmente com vencimento previsto para 2022, teria sido prorrogado durante o período da pandemia e consta com vencimento em 21 de julho de 2023.
Apesar dessas informações, o sistema consultado pela reportagem ainda apresenta o processo como “ativo” e na fase de “Autorização de Pesquisa”.
Até o momento, portanto, não identificamos nos dados consultados uma concessão de lavra de cobre para a área.
Isso significa que os documentos encontrados comprovam a existência de um processo de pesquisa mineral, mas não permitem afirmar, por si só, que exista autorização para exploração comercial ou lavra do minério.
A eventual utilização de explosivos, abertura de acessos, supressão de vegetação ou outras intervenções na área precisa ser analisada à luz das autorizações específicas eventualmente existentes e da legislação ambiental e minerária aplicável.
Serra da Besta: natureza, produção e turismo
Para além da questão mineral, a Serra da Besta possui importância ambiental, cultural, econômica e turística para o município de Uauá.
A comunidade desenvolveu, ao longo dos anos, iniciativas voltadas à convivência com o semiárido e ao aproveitamento sustentável dos recursos disponíveis. A produção de umbu, goiaba, manga, licuri, pinha, mel, mandioca, hortaliças e outros produtos integra a economia local e representa parte da relação histórica dos moradores com o território.
A comunidade também participou da criação de estruturas de beneficiamento da produção, fortalecendo a agricultura familiar e o associativismo.
A Serra da Besta passou ainda a integrar iniciativas de turismo de natureza e ecoturismo, com destaque para a tradicional Trilha Ecológica da Serra da Besta, construída e promovida pela própria comunidade.
A atividade reúne moradores, visitantes e organizações ligadas ao desenvolvimento sustentável da região, envolvendo entidades como a Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá (Coopercuc), a Associação da Serra da Besta e outras instituições e associações que atuam no território.
A comunidade também possui relação com o movimento de fundos e fechos de pasto, tradicional forma de organização social e uso comunitário da terra no semiárido baiano.
Por isso, para os moradores, a Serra da Besta não representa apenas uma área geográfica onde eventualmente possa existir um recurso mineral. Trata-se de um território construído socialmente ao longo de gerações.
Uma comunidade que colocou a Serra da Besta no mapa
A história recente da Serra da Besta é marcada pela capacidade de organização de seus moradores.
Em uma região onde sobreviver exige adaptação permanente às condições do semiárido, a comunidade encontrou caminhos para transformar a produção local em oportunidade de geração de renda e permanência no território.
O beneficiamento da produção agrícola, o associativismo, a agricultura familiar e o turismo ecológico ajudaram a construir uma nova imagem para a Serra da Besta.
O lugar passou a ser conhecido não apenas pelas dificuldades do sertão, mas também por sua paisagem, sua biodiversidade, sua produção, sua cultura e pela capacidade de organização de seu povo.
É justamente essa trajetória que hoje aumenta a preocupação dos moradores diante dos relatos de possíveis intervenções no cume da serra.
Comunidade quer transparência
O principal questionamento apresentado pelos moradores não é apenas sobre a existência de um processo minerário.
A comunidade quer saber quem está realizando as intervenções, quais atividades estão sendo desenvolvidas, quais autorizações foram concedidas, quais órgãos ambientais foram comunicados e quais impactos podem ocorrer sobre o território e sobre o patrimônio natural da Serra da Besta.
Também há preocupação com a possibilidade de utilização de explosivos, caso essa informação seja confirmada pelas autoridades responsáveis.
Até que os fatos sejam oficialmente esclarecidos, não é possível afirmar que uma empresa mineradora esteja realizando exploração irregular na Serra da Besta.
Entretanto, os relatos dos moradores e os vestígios que dizem ter encontrado justificam, segundo a comunidade, uma apuração formal e transparente por parte das autoridades competentes.
A realização de uma audiência pública poderia contribuir para esclarecer as dúvidas e permitir que moradores, poder público, órgãos ambientais e representantes de eventuais empreendimentos apresentem suas versões e documentos.
O que a comunidade pede?
Entre as principais reivindicações apresentadas estão:
– esclarecimentos sobre eventuais atividades de pesquisa mineral na Serra da Besta;
– identificação dos responsáveis pelas intervenções relatadas;
– informações sobre as autorizações ambientais e minerárias existentes;
– fiscalização da área pelos órgãos competentes;
– esclarecimentos sobre o eventual uso de explosivos;
– proteção da vegetação, das formações rochosas e do patrimônio natural;
– participação da comunidade nas discussões que envolvam seu território;
– e a realização de uma audiência pública para tratar da situação.
Próximos capítulos
A Serra da Besta é hoje um dos símbolos da capacidade de organização comunitária e das potencialidades do turismo sertanejo em Uauá.
A discussão que começa a surgir em torno das possíveis atividades de pesquisa mineral coloca frente a frente questões que precisam ser tratadas com responsabilidade: desenvolvimento econômico, direito minerário, proteção ambiental, participação comunitária, patrimônio natural e preservação de um território construído por gerações.
O nosso portal continuará acompanhando o caso e buscando informações junto às autoridades, aos órgãos ambientais e minerários e aos demais envolvidos.
Nos próximos dias, estaremos publicando novas informações e os próximos capítulos desta luta da comunidade da Serra da Besta por transparência, esclarecimento e proteção de seu território.
A Serra da Besta tem povo.
Tem história.
Tem natureza.
Tem cultura.
Tem produção.
Tem turismo.
E, acima de tudo, tem uma comunidade que quer ser ouvida.
Da redação
Robson Rodrigues

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