Há fotografias que registram apenas uma cena. E há aquelas que parecem guardar dentro de si uma pequena história da humanidade. Esta, para mim, pertence à segunda categoria.

Em um único canto da casa sertaneja, diferentes tempos da nossa história se encontram.

 

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A espada-de-São-Jorge remete às ancestralidades africanas e à presença de saberes, crenças e símbolos que atravessaram o Atlântico e criaram raízes profundas no Brasil. Ao lado dela, o pote de barro carrega a herança dos povos originários, que há séculos dominam a arte de transformar a terra em utensílios para guardar, conservar e utilizar a água e os alimentos.

 

O filtro de barro, por sua vez, representa uma das mais interessantes tecnologias desenvolvidas e popularizadas no Brasil. Simples, silencioso e aparentemente rudimentar, utiliza os princípios da cerâmica porosa para proporcionar uma filtragem lenta da água e permanece, até hoje, como uma solução extremamente eficiente e acessível.

 

O próprio batente de cimento também conta uma história. Ele representa o trabalho de tantos pedreiros sertanejos que, com poucas ferramentas e muito conhecimento prático, ergueram casas, capelas, muros e comunidades inteiras. São homens que muitas vezes não deixaram seus nomes escritos nas construções, mas deixaram suas marcas na paisagem e na memória.

 

E então aparece o tecido de chita, com suas flores coloridas. Talvez seja um dos elementos mais delicados da fotografia. É a expressão do cuidado das mulheres sertanejas, que aprenderam a colocar cor, beleza e delicadeza em ambientes marcados pela dureza do semiárido. Onde a natureza muitas vezes economiza suas flores, elas as reinventam nos tecidos, nas paredes, nas roupas e nos pequenos detalhes da casa.

 

O copo americano, produzido pela indústria brasileira e incorporado ao cotidiano de várias gerações, representa outro momento dessa trajetória: a industrialização, a produção em escala e a transformação dos hábitos domésticos.

 

Ao lado dele, o copo plástico descartável parece representar o nosso tempo. A modernidade líquida de Bauman talvez encontre aqui uma pequena metáfora: vivemos cada vez mais cercados por objetos feitos para durar pouco, consumir rapidamente e desaparecer. O descartável tornou-se parte de uma cultura que frequentemente substitui a permanência pela conveniência.

 

E talvez seja justamente aí que a fotografia se torne mais interessante.

 

Os objetos cobertos pela chita são antigos, mas continuam vivos. O alumínio, resistente e durável, atravessou gerações. O pote de barro continua cumprindo sua função. O filtro continua filtrando. O copo americano continua sendo copo. São objetos que não precisaram ser descartados para que o tempo avançasse.

 

Nesta fotografia, não vejo simplesmente um pote, um filtro, uma planta, alguns copos e um pedaço de tecido. Vejo a sobreposição de muitos Brasis: o Brasil indígena, o Brasil africano, o Brasil sertanejo, o Brasil rural, o Brasil industrial e o Brasil contemporâneo.

Tudo está ali, lado a lado, sem que nenhum tempo tenha desaparecido completamente.

É uma pequena arqueologia do cotidiano.

Uma composição de muitos tempos em uma só fotografia.

 

Foto: página do Instagram da Serra dos Campos Novos

Texto: Robson Rodrigues