“O olho de Deus cura, o do homem fura.”

 

Hoje, o sertão de Uauá amanheceu um pouco mais silencioso.

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Faleceu Dona Edeltrudes, nascida em 24 de junho de 1925, filha de vaqueiro e de rezadeira. Partiu depois de atravessar mais de um século de história, levando consigo as marcas, as dores, as alegrias e, sobretudo, os saberes de muitas gerações do nosso sertão.

 

Seu sepultamento será realizado hoje, 6 de setembro de 2026, às 16 horas, no Cemitério de Uauá, Bahia.

 

Dona Edeltrudes não foi apenas uma mulher que viveu muitos anos. Ela foi uma mulher que guardou o tempo.

 

Em sua memória estavam histórias que não foram escritas em livros, mas transmitidas pela palavra; conhecimentos que não passaram pelas universidades, mas foram aprendidos com os mais velhos; orações que atravessaram gerações e chegaram até ela pelas mãos e pela voz de sua mãe.

 

Com três pequenos ramos de folhas verdes, Dona Edeltrudes realizava suas rezas. Tocava um ombro, depois a cabeça, depois o outro ombro, enquanto pronunciava suas palavras sagradas. Rezava contra o “mal olhado”, o “mal jeito”, a “mundiça” e tantos outros males reconhecidos pela sabedoria popular.

 

Mas talvez sua maior força não estivesse apenas naquilo que fazia. Estava naquilo que representava.

 

Dona Edeltrudes era uma ponte entre gerações.

 

Nela, a tradição oral encontrava o presente. Nela, a espiritualidade popular da Caatinga sobrevivia ao avanço do tempo. Sua casa era também um lugar de memória; sua palavra, um fragmento da história; suas mãos, instrumentos de uma tradição que o povo sertanejo aprendeu a preservar muito antes que alguém lhe desse o nome de patrimônio cultural.

 

Por isso, sua partida não diz respeito apenas à sua família.

 

Uauá perde uma de suas mais importantes guardiãs da memória popular. A Bahia perde uma Mestra. E a cultura popular brasileira perde uma dessas mulheres anônimas que, durante toda uma vida, ajudaram a manter viva a imensa diversidade cultural deste país.

 

Dona Edeltrudes pertence àquela linhagem de mulheres sertanejas que fizeram da oralidade uma biblioteca e da própria existência um arquivo vivo. Mulheres que aprenderam com suas mães, que ensinaram aos filhos, que acolheram vizinhos e desconhecidos e que, sem perceber, conservaram conhecimentos que hoje constituem parte fundamental da identidade cultural brasileira.

 

Ela era mais do que centenária.

 

Era o próprio centenário de Uauá acontecendo diante dos nossos olhos.

 

Quando conversávamos com ela, não estávamos apenas diante de uma anciã. Estávamos diante de mais de cem anos de sertão. Seu rosto carregava o mapa de um tempo que já não existe. Suas rugas eram estradas abertas pela vida. Seus olhos pareciam guardar paisagens, pessoas e histórias que desapareceram muito antes de nós chegarmos.

 

Sua partida nos lembra de uma verdade dolorosa: quando uma Mestra da cultura popular morre, não perdemos apenas uma pessoa. Perdemos uma biblioteca que nunca foi escrita, uma coleção de saberes que nenhuma fotografia consegue registrar completamente, uma maneira particular de olhar o mundo.

 

Mas Dona Edeltrudes deixa algo que a morte não consegue sepultar.

 

Deixa memória.

 

Deixa as suas rezas, seus gestos, suas palavras, suas histórias e a lembrança de todos aqueles que um dia chegaram diante dela buscando conforto. Deixa o exemplo de uma vida dedicada à família, à fé e ao cuidado com o outro.

 

E deixa também a honra de ter sido reconhecida pela Academia Brasileira de Letras, Artes e Ciências da Caatinga como Acadêmica Honorária e Mestra da Cultura Popular da Caatinga.

 

Esse reconhecimento não foi apenas uma homenagem a uma mulher centenária. Foi o reconhecimento de que os saberes de Dona Edeltrudes fazem parte de algo muito maior: a memória cultural de Uauá, da Bahia e do Brasil.

 

Hoje, diante de sua partida, a Academia se curva respeitosamente.

 

Eu, particularmente, guardarei a felicidade e a graça de ter sido abençoado por suas mãos. Guardo a imagem daquela anciã que, com simplicidade, fé e serenidade, continuava exercendo um ofício aprendido na infância e preservado por mais de um século.

 

Sua mão parecia uma pena com que Deus reescrevia nossos caminhos com menos dor.

 

Sua oração era abrigo para quem sofria. Seu rosto era o mapa do próprio tempo. Seus olhos, janelas de um templo secular.

 

E sua voz nos ensinava, com a sabedoria de quem atravessou um século, que “quem cura é Deus; o olho do homem só fura.”

 

Hoje, o corpo de Dona Edeltrudes retorna à terra da qual veio. Mas aquilo que ela foi permanecerá entre nós.

 

Permanecerá nas histórias de Uauá, na memória daqueles que a conheceram, nos estudos sobre a cultura popular, na lembrança de seus familiares e, sobretudo, na identidade de um povo que aprendeu com seus ancestrais que a vida também pode ser escrita através da fé, da palavra e da tradição.

 

Que a terra do nosso sertão receba Dona Edeltrudes com a mesma generosidade com que ela recebeu tantas pessoas durante sua longa caminhada.

 

E que Deus, a quem ela tantas vezes recorreu em suas orações, a receba em sua infinita misericórdia.

 

Descanse em paz, Dona Edeltrudes. A senhora parte da vida, mas permanece na história.

 

Uauá, Bahia, 6 de setembro de 2026.

 

Robson Rodrigues

Presidente da Academia de Letras, Artes e Ciências da Caatinga