Entre Rosários e Bacamartes é uma obra muito aguardada por quem lê, pesquisa e busca compreender a saga do povo sertanejo, sobretudo pelo olhar de quem vive essa realidade por dentro.
A partir de uma perspectiva de dentro para fora, Patrícia Oliveira oferece uma nova leitura sobre Canudos, colocando em primeiro plano a mulher sertaneja como símbolo de resistência e resiliência — um aspecto ainda pouco explorado pelos grandes historiadores, pesquisadores e estudiosos do tema.
É pela força dessas mulheres, de sua fé e de sua dedicação que o sertão de Canudos revela verdadeiros rios de sabedoria e empoderamento. Parteiras, rezadeiras, curandeiras, religiosas e vaqueiras sertanejas constituem um patrimônio vivo de uma história que, na maioria das vezes, foi narrada por homens, estrangeiros ou por pesquisadores de fora do coração do sertão, invisibilizando sua presença como verdadeiras protagonistas.
A obra que será lançada representa uma oportunidade para todos aqueles interessados em reparar uma narrativa que, há séculos, omite, despreza e tenta apagar a memória e a oralidade do povo sertanejo, dos remanescentes africanos, dos povos originários e, principalmente, da mulher sertaneja. Patrícia Oliveira dedica sua trajetória de pesquisa a esse propósito. Filha da terra, testemunha das desigualdades, dos desequilíbrios e também das harmonias que marcam Canudos, ela conhece de perto as marcas que o Estado, o sistema educacional, a política e a economia lançam sobre as vozes do sertão.
A pesquisadora foi ao encontro das mulheres sertanejas em busca da oralidade, da voz da terra, do fogo, do vento e do clima semiárido para compreender e vivenciar os saberes ancestrais dessas pessoas que transformaram a resistência em modo de vida.
Quando muitos acreditam que a Guerra de Canudos terminou em 1897, não percebem que ainda vivemos as batalhas do pós-guerra. Canudos nunca foi vencido; foi brutalmente massacrado por uma República que, ao longo de sua história, insistiu em negar a força dessas guerreiras que resistiram e continuam resistindo.
Mais do que contar a história de Canudos, esta obra apresenta o cotidiano dessas vozes femininas que fizeram e continuam fazendo a diferença por meio da medicina fitoterápica, das rezas, das bênçãos e dos cuidados transmitidos pelas mãos dessas mulheres que curam não apenas o corpo, mas também a alma de seu povo.
Há alguns anos acompanho a dedicação de Patrícia a este projeto e testemunhei sua luta para manter o foco e registrar, em cada página deste livro, aquilo que durante tanto tempo permaneceu ausente das narrativas oficiais.
Espero, com grande expectativa, ter esta obra em minhas mãos. Tenho convicção de que ela iluminará minha compreensão sobre o sertão e se tornará uma importante referência para minhas pesquisas e para as respostas que ainda busco sobre a nossa história.
Por fim, parabenizo nossa confreira da Academia da Caatinga pela concretização desta valiosa contribuição à memória do povo sertanejo. Coloco-me, igualmente, à disposição para colaborar na divulgação desta importante obra, certo de que ela ocupará lugar de destaque entre os estudos sobre Canudos e sobre a força da mulher sertaneja.
Robson Rodrigues
Presidente da Academia Brasileira de Letras, Artes e Ciências da Caatinga – ABLACC

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