Mantendo viva uma das mais belas tradições do sertão baiano, a Alvorada dos Humildes levou uma verdadeira multidão às ruas de Uauá na madrugada desta segunda-feira, 15 de junho de 2026.

 

Mas esta não foi uma alvorada qualquer. Foi a alvorada da transição. A última alvorada de um século de história. No próximo São João, Uauá já estará celebrando seu centenário de emancipação política, iniciando oficialmente um novo século de existência.

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Como costuma dizer o poeta BGG da Mata Virgem, estamos deixando o “Uauá velho” para receber o “Uauá novo”. E isso não deve ser visto com tristeza. Pelo contrário. É motivo de alegria e esperança. Afinal, atravessamos cem anos de história e chegamos mais fortes do que nunca.

 

As novas tecnologias, a força da juventude e as transformações do mundo contemporâneo trazem novos caminhos, mas não apagam aquilo que nos define. A cultura popular segue viva, autêntica e pulsante na Terra dos Vagalumes.

 

Uma das grandes novidades desta alvorada foi a estreia do Alvoradeiro de Alto, uma estrutura criada para acompanhar o crescimento das nossas tradições populares. O aumento do público ao longo das últimas décadas tornou necessário ampliar a capacidade de sonorização das alvoradas. Agora, os pífanos e os músicos do Grupo Tradição podem levar sua música ainda mais longe pelas ruas da cidade.

 

Mais do que um equipamento, o Alvoradeiro de Alto representa um símbolo. A memória de Alto Barbosa permanece viva. O som que antes saía da histórica cadeira de Alto utilizada em sua homenagem agora ecoa de uma estrutura maior, mais moderna e preparada para acolher músicos, instrumentos e participantes.

 

O novo veículo também possibilita que figuras históricas da cultura popular uauaense, como Cavachão, Velhinho e outros mestres e mestras da tradição, possam continuar participando dos festejos, mesmo diante das limitações impostas pela idade.

 

Puxado por um trator, o Alvoradeiro de Alto carrega muito mais do que caixas de som e instrumentos. Carrega o peso da memória, da resistência e da identidade cultural de um povo que transformou a música em patrimônio afetivo.

 

Esta alvorada também demonstrou a força da organização popular. Em um ano marcado por incertezas sobre a realização dos festejos juninos, o povo de Uauá mostrou que sua cultura não depende exclusivamente de estruturas oficiais para existir.

 

Porque o verdadeiro São João não nasce nos grandes palcos nem nos espetáculos midiáticos. O verdadeiro São João nasce diante da Igreja Matriz, aos pés do Cruzeiro instalado em nossa praça em 1911, muito antes da construção do atual templo. Nasce no encontro do povo com sua própria história.

 

Foi nesse mesmo espaço que, há mais de um século, a banda de pífanos de Monte Santo se apresentou pela primeira vez em Uauá. Inspirado por aquele momento, Vicente José Barbosa, pai de Alto Barbosa, fundou a primeira banda de pífanos do município. Ali começou uma história de amor pela música, pela cultura e pelas tradições juninas.

 

Anos depois, Alto Barbosa comprou sua sanfona, formou seu grupo musical e ajudou a construir uma das maiores referências culturais da cidade. De seu trabalho nasceu o Grupo Tradição.

 

Quando Alto partiu, seu legado permaneceu com Zé de Alto e amigos. Depois da partida de Zé de Alto, a chama continuou acesa. Hoje ela segue sendo alimentada por Vicente, Bosco, Cristina, Gildo, Cavachão, Veiinho, Cláudio Barris e tantos outros músicos e colaboradores que mantêm viva a essência das alvoradas.

 

O Alvoradeiro de Alto surge como mais um capítulo dessa história. É a prova de que a tradição não apenas resiste: ela se reinventa. Mesmo diante das tentativas de apagamento, a cultura popular encontra novos caminhos para florescer.

 

Ao amanhecer desta segunda-feira, diante da Igreja Matriz, tive um sentimento difícil de explicar. Um pressentimento bom. A certeza de que nossas tradições populares continuarão crescendo, tornando-se cada vez mais fortes, autênticas e respeitadas.

 

Vi nos olhos de centenas de jovens o orgulho de pertencer a esta terra. Vi admiração pela nossa música, pelos nossos artistas e pelos nossos costumes. E saí dali convencido de que as novas gerações levarão ainda mais longe aquilo que recebemos de nossos antepassados.

 

A cultura de Uauá está em boas mãos.

Viva Uauá!

Viva o São João!

Viva o Alvoradeiro de Alto!

 

 

Da redação

Robson Rodrigues

 

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