Ao longo do século XX, a música de Uauá consolidou uma característica que permanece viva até os dias atuais: ela foi construída, sobretudo, por mestres populares.
Eram homens que, muitas vezes, jamais frequentaram uma escola de música, mas dominavam a arte de tocar, compor, ensinar e emocionar. Aprendiam ouvindo e observando os mais velhos, praticando nas festas religiosas, nos bailes, nas serenatas e nas reuniões familiares. Em seguida, transmitiam esse conhecimento às novas gerações, mantendo viva uma tradição que atravessou décadas.
Foi dessa forma que Uauá formou alguns dos maiores representantes de sua cultura musical.
Entre eles destaca-se Sabino Marques, eternizado pelo apelido de Cavachão.
Compositor sensível e profundamente identificado com sua terra, Cavachão transformou em música os sentimentos, as paisagens e o modo de viver do povo sertanejo. Embora tenha se estabelecido em Salvador, jamais rompeu os vínculos com Uauá. Ao contrário, fez da distância uma fonte permanente de inspiração.
Sempre que retornava à sua terra natal, trazia novas composições que rapidamente passavam a integrar o repertório popular. Suas canções eram recebidas pelo povo como verdadeiras declarações de amor à Terra dos Vagalumes.
Entre elas, destaca-se “Quero Abraçar Meu Povo”, composição que ultrapassou o tempo e se tornou um dos maiores símbolos musicais de Uauá, sendo executada em festas, encontros e celebrações como uma verdadeira homenagem à identidade uauaense. Também “Uauá”, “O imigrante”, “umbuzeiro” e dezenas de outras canções são sem dúvida verdadeiros hinos uauaenses.
Ao lado de Cavachão, outra figura tornou-se referência para várias gerações de músicos: Ranulfo Mendes, carinhosamente conhecido como Veinho Sanfoneiro.
Sanfoneiro de extraordinária sensibilidade, Veinho pertenceu à geração que preservou a tradição do pé-de-bode ao mesmo tempo em que acompanhou a modernização da música nordestina. Sua atuação ultrapassou os palcos. Ao incentivar jovens músicos, apoiar novos projetos e compartilhar seus conhecimentos, tornou-se um dos principais responsáveis pela continuidade da música popular em Uauá.
Sua influência alcançou também a geração seguinte, representada por seus filhos, Renan Mendes e Rafael Mendes, que mais tarde contribuíram para a renovação da música local como músicos e produtores culturais.
Entre os grandes nomes desse período destacam-se ainda Seu Diassis Sanfoneiro e família, Zé de Alto e Família e Seu Adhemar Família, Janjão e Família, Chico Dorope e Família, cujas contribuições ajudaram a fortalecer a tradição musical do município.
Cada um deles representava uma maneira própria de fazer música. Uns se destacavam pela sanfona, outros pelo violão, pelo canto ou pela capacidade de reunir músicos para animar festas e celebrações. Em comum, todos compartilhavam o compromisso de manter viva uma cultura construída coletivamente.
Enquanto esses mestres preservavam as raízes da música sertaneja, novas influências começavam a chegar ao interior nordestino.
Os grandes acordeons substituíam gradativamente o antigo pé-de-bode. As serenatas continuavam encantando as noites de luar, mas, pouco a pouco, guitarras elétricas, baixos, baterias e teclados passavam a integrar o cenário musical da cidade.
Era o reflexo das profundas transformações que ocorriam em todo o Brasil.
A juventude começava a ouvir novos ritmos. O rádio ganhava cada vez mais força e a televisão aproximava o sertão das grandes tendências da música popular brasileira.
Entretanto, em Uauá, a modernidade não significou o abandono da tradição.
Os novos músicos cresceram ouvindo os antigos mestres. Aprenderam com eles os primeiros acordes, acompanharam as festas religiosas, tocaram nos clubes recreativos e compreenderam que inovar não significava esquecer as próprias raízes.
Foi justamente dessa convivência entre tradição e modernidade que surgiria uma geração responsável por inaugurar uma nova fase da música uauaense: a era dos conjuntos musicais, das guitarras elétricas, dos bailes dançantes e das bandas que marcaram a juventude das décadas seguintes.
A história musical de Uauá entrava, então, em um novo tempo. E este momento iremos contar no próximo capítulo.
Robson Rodrigues
Bosco Barbosa
Pedro Peixinho
Gildemar Sena

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