No lajeado do ponto mais ao sul do Serrote do Gato, nosso pequeno Álvaro alimenta a Pançuda. Famosa por ser uma excelente matriz, essa cabra já deu à luz diversos partos gemelares, contribuindo para fortalecer os rebanhos caprinos de Uauá e perpetuar uma tradição que atravessa gerações.
A Pançuda já está acostumada aos mimos do professor Antônio Ferdim, assim como tantas outras cabras espalhadas pelas malhadas do sertão. Quando a fartura da Caatinga começa a diminuir, a partir do mês de junho, elas se aproximam dos terreiros dos sítios e fazendas em busca de alimento: alguns grãos de milho, cascas de melancia, palhas de feijão-de-corda e tudo aquilo que o sertanejo, generosamente, reparte com seus animais.
Ela é apenas uma entre milhares de cabras que, nos meses de julho, agosto e setembro, enfrentam o período mais difícil do ano. Precisam de alimento para manter a produção de leite e alimentar seus cabritos. Essa é uma das grandes missões da caprinovinocultura no semiárido: garantir a sobrevivência dos rebanhos e, ao mesmo tempo, sustentar uma economia que há mais de três séculos alimenta o povo sertanejo, desde os tempos da histórica Civilização do Couro.
Talvez, para um pesquisador europeu ou norte-americano, essa relação entre o sertanejo e seus animais seja difícil de compreender. Aqui, cuidamos dos nossos rebanhos como quem cuida da própria família. Existe uma ligação construída pelo trabalho, pela convivência e pela necessidade de sobreviver juntos. Como costuma dizer o poeta BGG da Mata Virgem, “nesta terra o homem se confunde com o bode, e o bode se confunde com o homem”. A frase, embora poética, traduz uma profunda verdade sobre a identidade do nosso povo.
Em Uauá, praticamente tudo passa, de alguma forma, pela caprinovinocultura. Ela está presente na economia, na cultura, na educação, na culinária, nas festas, nas tradições e até nas histórias que contamos às novas gerações. O bode não é somente um animal de criação; é um dos pilares da nossa existência no sertão.
E foi ali, num alto do Serrote do Gato, sobre antigos granitos moldados por milhões de anos, cercada pela exuberante flora e fauna da Caatinga, que a Pançuda saboreava tranquilamente uma casca de melancia crioula. Uma cena simples, mas carregada de significado. Naquela cabra repousava o retrato da persistência, da adaptação e da força de um povo que aprendeu a transformar as dificuldades do semiárido em motivo de vida.
A Pançuda, mais do que uma cabra, é um símbolo da resistência do Sertão.
Vídeo e texto: Robson Rodrigues

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