Em Uauá, é muito comum encontrar, pelos caminhos, estradas e veredas da caatinga, um homem ou uma mulher tangendo seu rebanho de cabras ou ovelhas. Até mesmo o observador mais desatento percebe, nessa cena tão característica do nosso sertão, o quanto a criação de pequenos ruminantes faz parte da identidade, da cultura e da economia do município.
Atualmente, cerca de cinco mil homens e mulheres estão cadastrados como criadores de caprinos e ovinos em Uauá. Desse total, aproximadamente 80% a 85% são pequenos produtores que criam seus rebanhos nas tradicionais áreas de fundo de pasto. Em geral, possuem apenas um pequeno curral ao redor de suas residências, utilizado para a apartação dos animais e o manejo durante o período de parição.
Essa força produtiva, formada por milhares de famílias sertanejas, é responsável por um rebanho estimado em cerca de 800 mil caprinos e ovinos, distribuídos pelos mais de três mil quilômetros quadrados do território uauaense. A caprinovinocultura representa hoje aproximadamente um terço da economia do município, consolidando-se como sua principal atividade econômica.
Entretanto, apesar de toda essa importância, nossos produtores convivem com uma realidade preocupante: a ausência quase completa de assistência técnica continuada por parte dos governos municipal, estadual e federal.
A falta de orientação especializada tem contribuído para o avanço de problemas como verminoses, parasitoses, anemia, consanguinidade e baixa produtividade dos rebanhos. Como consequência, muitos criadores acumulam prejuízos ano após ano, enquanto a qualidade genética e produtiva dos rebanhos de corte e de leite sofre um processo gradual de deterioração.
Nem sempre quantidade significa qualidade. E é exatamente essa realidade que estamos presenciando em Uauá.
Embora possuamos um dos maiores rebanhos de caprinos do Brasil, convivemos também com um dos maiores abandonos do homem e da mulher do campo. Nas últimas décadas, a assistência técnica praticamente desapareceu, e as políticas públicas voltadas ao fortalecimento da caprinovinocultura tornaram-se insuficientes ou inexistentes.
Esse abandono, somado às longas estiagens e à falta de interesse de muitos jovens em dar continuidade às atividades rurais de suas famílias, está criando uma lacuna perigosa para a economia local.
Ano após ano, observamos o enfraquecimento silencioso da atividade que sempre sustentou milhares de famílias e ajudou a construir a história de Uauá.
Ainda há tempo para mudar essa realidade, mas o tempo exige ação.
Antes de enchermos a boca para afirmar que Uauá é a Capital do Bode, precisamos encher o coração de compromisso com aqueles que fazem esse título existir todos os dias. Não basta carregar um símbolo; é preciso construir uma referência nacional em produção, tecnologia, genética, sanidade animal, agregação de valor e qualidade de vida para quem vive da criação.
Uauá tem todas as condições para se tornar uma verdadeira potência da caprinovinocultura brasileira. Para isso, será necessário unir produtores, associações, cooperativas, universidades, instituições de pesquisa, iniciativa privada e os poderes públicos em torno de um grande projeto de desenvolvimento rural.
Mais do que nunca, precisamos promover um amplo debate sobre o futuro da caprinovinocultura em nosso município. A realização de uma audiência pública, reunindo especialistas, produtores, pesquisadores e representantes da sociedade, pode ser o primeiro passo para a construção de uma política permanente de fortalecimento desse setor.
Se não enfrentarmos esse desafio agora, correremos o risco de assistir, passivamente, à decadência da atividade que sempre foi o alicerce da economia uauaense.
O futuro da Capital do Bode depende das decisões que tivermos a coragem de tomar hoje.
Da redação
Robson Rodrigues

0 Comentários