A Bahia possui uma das maiores redes educacionais do Brasil e carrega uma responsabilidade proporcional ao tamanho de sua população. São mais de 4 milhões de estudantes distribuídos por milhares de escolas públicas e privadas, em um território marcado por profundas desigualdades sociais, econômicas e regionais.

Apesar dos investimentos realizados nos últimos anos e de avanços importantes em alguns indicadores, os resultados das avaliações nacionais ainda revelam uma realidade incômoda: a Bahia continua distante dos estados que apresentam os melhores desempenhos educacionais do país, principalmente nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio.

O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), calculado a partir do desempenho dos estudantes no Saeb e dos indicadores de aprovação escolar, é um dos principais instrumentos utilizados para acompanhar a qualidade da educação brasileira.

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Nos resultados de 2023, a rede estadual da Bahia alcançou 3,7 no Ensino Médio, abaixo dos 4,1 registrados pelo Brasil. Estados como Paraná, Goiás e Espírito Santo apresentaram resultados superiores.

O problema fica ainda mais evidente quando se observa a trajetória dos estudantes ao longo da educação básica. O desafio não está apenas em colocar o aluno dentro da escola, mas em garantir que ele avance aprendendo aquilo que deveria aprender em cada etapa.

Uma contradição que precisa ser discutida

A Bahia, nos últimos anos, ampliou significativamente sua estrutura educacional.

O Estado passou a contar com novas escolas, unidades de tempo integral, laboratórios, quadras esportivas, equipamentos e Centros Territoriais de Educação Profissional, os chamados CETEPs, além de outras estruturas destinadas à formação técnica e profissional.

A expansão da educação em tempo integral é expressiva. Segundo o Censo Escolar 2025, a Bahia chegou a 140 mil matrículas nessa modalidade, correspondentes a 34% dos estudantes da rede estadual, ficando em quarto lugar entre os estados brasileiros em número absoluto de estudantes em tempo integral. O Estado informa ainda possuir mais de 690 escolas nessa modalidade e investimentos superiores a R$ 9,7 bilhões no período.

Também houve forte crescimento das matrículas em tempo integral: entre 2023 e 2024, elas passaram de 57.731 para 89.706 na rede estadual, um aumento de aproximadamente 55%.

São investimentos importantes e que não podem ser ignorados.

Mas surge uma pergunta inevitável:

Se a estrutura física está crescendo, por que os resultados de aprendizagem ainda não acompanham esse crescimento na mesma velocidade?

É justamente essa pergunta que precisa deixar de ser tratada como uma crítica política e passar a ser encarada como uma questão estratégica para o futuro da Bahia.

Escola bonita não significa, necessariamente, aprendizagem melhor

Uma escola moderna é fundamental. Laboratórios, quadras, bibliotecas, salas climatizadas, equipamentos tecnológicos e espaços adequados tornam o ambiente escolar mais digno e podem contribuir para a aprendizagem.

Mas infraestrutura, sozinha, não ensina.

O estudante precisa encontrar dentro da escola um projeto pedagógico consistente, professores valorizados e acompanhados, gestão preparada, acompanhamento individual da aprendizagem, reforço para quem apresenta dificuldades e uma política permanente de combate à evasão.

O próprio retrato educacional da Bahia mostra que ainda existe um enorme espaço entre acesso, permanência e aprendizagem.

Dados compilados pelo Todos Pela Educação apontam que, em 2024, a Bahia possuía 3,4 milhões de matrículas na Educação Básica, mais de 167 mil professores e aproximadamente 15,8 mil escolas. No Ensino Médio eram mais de 510 mil estudantes.

O tamanho da rede, portanto, exige muito mais do que grandes obras. Exige capacidade de transformar investimento em resultado pedagógico.

O analfabetismo continua sendo uma ferida aberta

Enquanto se discutem escolas modernas, educação profissional e tecnologia, a Bahia ainda enfrenta um problema histórico que não pode ser escondido atrás de novas construções: o analfabetismo.

Em 2024, a taxa de analfabetismo entre pessoas de 15 anos ou mais na Bahia foi de 12,8%, uma das maiores do país.

Em números absolutos, isso significa mais de um milhão de baianos sem saber ler e escrever adequadamente.

É uma contradição profunda: ao mesmo tempo em que o Estado investe bilhões em novas estruturas educacionais, uma parcela gigantesca de sua população adulta continua excluída do direito básico à alfabetização.

Isso demonstra que o problema educacional baiano não começa no Ensino Médio. Ele vem de muito antes.

Onde está o problema?

Não existe uma única explicação para o desempenho da Bahia. O quadro é resultado de uma combinação de fatores históricos e atuais.

Um deles é a desigualdade social. Crianças e adolescentes que vivem em situação de pobreza, insegurança alimentar, dificuldades de transporte ou precisam trabalhar têm maiores obstáculos para permanecer na escola e aprender.

Outro problema é a fragilidade da aprendizagem acumulada. Um aluno que chega ao Ensino Médio sem domínio adequado de leitura, interpretação de texto e matemática terá dificuldades para acompanhar conteúdos mais complexos.

É como construir um prédio sobre uma fundação incompleta.

Há também questões relacionadas à formação continuada dos professores, gestão escolar, acompanhamento pedagógico, distorção idade-série, evasão, absenteísmo, transporte escolar e desigualdades entre municípios e territórios.

A própria taxa de abandono demonstra que a permanência continua sendo um desafio. Embora tenha havido melhora significativa — de 11,5% em 2021 para 5,4% em 2023, segundo dados divulgados pelo Governo da Bahia — o problema ainda é relevante.

E há uma questão ainda mais importante: aprovar o estudante não significa necessariamente que ele aprendeu.

O Ideb justamente procura combinar fluxo escolar e desempenho nas avaliações para evitar que a simples redução da reprovação seja confundida com melhoria da qualidade.

CETEPs e ensino técnico: oportunidade que precisa produzir resultados

A expansão da educação profissional é uma iniciativa que pode representar uma mudança importante para milhares de jovens baianos.

Os CETEPs e outras unidades de formação técnica podem aproximar a escola do mundo do trabalho, ampliar oportunidades e oferecer aos jovens uma formação mais conectada às características econômicas de cada região.

Mas também é preciso avaliar seus resultados.

Quantos alunos concluem os cursos?

Quantos conseguem emprego na área em que estudaram?

Quantos ingressam no ensino superior?

Os cursos oferecidos correspondem às necessidades econômicas de cada território?

Qual é o desempenho desses estudantes em Português, Matemática, Ciências e outras áreas fundamentais?

Essas perguntas precisam fazer parte da avaliação pública da política educacional.

Porque não basta inaugurar uma escola técnica; é preciso saber o que acontece com o estudante depois que ele atravessa seus portões.

O que a Bahia precisa fazer?

A resposta não está necessariamente em construir ainda mais escolas. Em muitos lugares, o desafio pode estar em fazer melhor aquilo que já existe.

A Bahia precisa de uma política educacional baseada em resultados de aprendizagem, com metas claras e acompanhamento permanente.

É necessário:

1. Recuperar a aprendizagem básica.
Nenhum aluno deveria chegar ao Ensino Médio sem dominar leitura, escrita e matemática. Programas de recomposição precisam começar nos primeiros anos do Ensino Fundamental.

2. Criar acompanhamento individual dos estudantes.
A escola precisa identificar rapidamente quem está ficando para trás e oferecer reforço antes que a dificuldade se transforme em abandono.

3. Valorizar e apoiar os professores.
Não basta cobrar resultados. É necessário oferecer formação continuada, condições adequadas de trabalho, planejamento pedagógico e apoio técnico.

4. Avaliar as políticas pelo resultado, não apenas pelo investimento.
Quanto foi gasto é importante. Mas a pergunta principal deve ser: quanto a aprendizagem melhorou?

5. Fortalecer a alfabetização de jovens e adultos.
Mais de um milhão de baianos ainda representam um enorme passivo educacional. A alfabetização dessa população deveria ser tratada como uma prioridade de Estado.

6. Fazer os CETEPs dialogarem com as economias regionais.
A formação profissional precisa considerar as vocações de cada território: agricultura, pecuária, mineração, comércio, indústria, tecnologia, turismo, energia, serviços e economia criativa.

7. Combater a evasão de maneira territorializada.
Cada estudante que abandona a escola possui uma história. É preciso descobrir por que ele saiu e construir mecanismos para trazê-lo de volta.

8. Fortalecer a colaboração entre Estado e municípios.
A educação não pode ser pensada como ilhas administrativas. O aluno que chega ao Ensino Médio carrega toda a trajetória construída nos anos anteriores, principalmente na rede municipal.

A Bahia precisa transformar investimento em aprendizagem

Não se trata de negar os avanços.

A Bahia melhorou indicadores, reduziu o abandono, ampliou o tempo integral e realizou investimentos importantes na infraestrutura educacional. Esses avanços devem ser reconhecidos.

Mas também não se pode confundir expansão da estrutura com transformação da aprendizagem.

O verdadeiro teste de uma política educacional não está na quantidade de escolas inauguradas, no tamanho da obra ou no valor anunciado para investimentos.

Está na criança que aprende a ler. No adolescente que consegue interpretar um texto. No jovem que domina matemática. No estudante que conclui o Ensino Médio preparado para trabalhar, empreender ou ingressar na universidade.

E, principalmente, no adulto que finalmente consegue escrever o próprio nome, ler uma notícia, compreender um documento e exercer plenamente sua cidadania.

A Bahia é grande demais para aceitar resultados pequenos.

Tem população, universidades, professores, pesquisadores, instituições, recursos públicos, escolas e uma juventude numerosa. O que falta, talvez, seja transformar todo esse potencial em uma política educacional mais focada na aprendizagem, na avaliação dos resultados e na redução das desigualdades.

A pergunta que precisa orientar os próximos anos não é apenas “quantas escolas conseguimos construir?” É outra, muito mais importante:

“Quantos baianos conseguiram aprender de verdade?”

É a resposta a essa pergunta que determinará se a educação da Bahia continuará apenas avançando em números ou se, finalmente, conseguirá avançar naquilo que mais importa: a aprendizagem e a transformação da vida das pessoas.

Da redação
Robson Rodrigues