Há obras que procuram retratar a realidade. Outras procuram interpretá-la. Esta pintura, realizada em 2002, pelo artista uauaense Robson Rodrigues, pertence a uma terceira categoria: ela procura denunciar uma realidade histórica que, por muito tempo, permaneceu naturalizada no imaginário brasileiro.

 

À primeira vista, a figura central parece um sertanejo de anatomia impossível. O corpo é fragmentado, as roupas se transformam em mosaicos de cores, enquanto os membros fogem à lógica da natureza. Entretanto, essa deformação não representa um erro anatômico; representa uma história. O sertanejo possui três pés e três mãos, mas continua mutilado. Faltam dedos, partes dos membros e a harmonia física. A aparente abundância de força contrasta com a perda de sua própria integridade. É a imagem de um povo que foi obrigado, durante séculos, a produzir além de seus limites, pagando por isso com o desgaste do corpo, da dignidade e da própria identidade.

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O elemento mais inquietante da composição encontra-se no canto superior direito. O rosto de uma mulher branca, maquiada e envolta por cores suaves, observa silenciosamente o personagem principal. Seu olhar atravessa o corpo do sertanejo, penetra-lhe a pele e emerge pelos seus olhos. Não se trata de um simples contato visual, mas da representação da violência simbólica. É o olhar da superioridade, da hierarquia racial e cultural, da ideia de que determinados grupos possuem o direito de definir quem merece reconhecimento, beleza, inteligência ou humanidade. O sertanejo passa a enxergar a si mesmo através do olhar de quem o julga inferior.

 

Logo abaixo dessa figura aparece um político, mordendo o pé do sertanejo. A escolha da posição é significativa. Enquanto o olhar da mulher representa a dominação simbólica e cultural, o político representa a exploração concreta, cotidiana, material. A mordida simboliza uma relação secular de dependência e exploração, na qual a política deixa de servir ao povo para alimentar estruturas de poder construídas justamente sobre sua fragilidade.

 

Outro detalhe revela a sofisticação simbólica da obra: um pequeno peixe salta em direção à mão do sertanejo. Não é um predador imponente, mas justamente um animal pequeno. Ele representa os pequenos coronéis, as lideranças locais que reproduzem, em escala reduzida, os mecanismos históricos de dominação das grandes elites. A violência não nasce apenas dos centros de poder; ela também encontra continuidade nas relações locais, onde interesses particulares frequentemente se sobrepõem ao bem coletivo.

 

O ambiente reforça essa narrativa. Os tons ocres, verdes escuros e marrons não funcionam somente como paisagem. Eles traduzem um sertão marcado pela seca, pela dureza da sobrevivência e pela resistência. O chão fragmentado lembra tanto a terra rachada pela estiagem quanto a fragmentação da própria experiência humana de quem vive sob constantes processos de exclusão. Os galhos azulados que atravessam a composição podem ser vistos como fissuras, veias ou descargas que percorrem toda a cena, conectando cada elemento dessa violência histórica.

 

Embora profundamente crítica, a pintura não transforma o sertanejo em vítima passiva. Ele permanece de pé. Seu corpo carrega as marcas da exploração, mas continua ocupando o centro da composição. Sua permanência sugere resistência. É um personagem que sobrevive apesar das mutilações físicas, sociais e culturais que lhe foram impostas.

 

Produzida com materiais simples e recursos limitados, numa época em que seu autor buscava construir sua própria identidade artística, a obra demonstra que a potência da arte não depende do luxo dos materiais, mas da força da ideia. A precariedade dos recursos dialoga, inclusive, com o próprio conteúdo da pintura: um artista sertanejo, trabalhando com o que tinha ao alcance das mãos, denunciando justamente as desigualdades que limitaram, durante séculos, as possibilidades de criação e desenvolvimento do povo do interior.

 

Vista hoje, mais de duas décadas depois, esta tela revela mais quê a inquietação de um jovem artista. Ela antecipa uma trajetória intelectual comprometida com a memória, a cultura e a dignidade do sertão. Os mesmos temas que posteriormente apareceriam na pesquisa histórica, na literatura e no jornalismo já estavam presentes aqui, organizados através da linguagem visual.

 

Esta não é meramente uma pintura sobre o sertanejo. É uma pintura sobre a disputa pelo direito de existir sem precisar aceitar o olhar de quem sempre tentou definir o seu lugar na sociedade. É um manifesto contra a violência simbólica, contra o racismo, contra o coronelismo e contra todas as formas de exploração que insistem em transformar seres humanos em instrumentos de trabalho e submissão. Acima de tudo, é a afirmação de que o sertão possui voz própria e que sua história pode — e deve — ser contada por aqueles que a vivem.