O povoado de Caratacá, no município de Uauá, despede-se hoje de uma de suas mais preciosas histórias. Faleceu ontem Dona Joana Dantas, mulher centenária que carregava consigo mais de um século de memórias, experiências, trabalho e ensinamentos.

Nascida em 24 de novembro de 1917, na Fazenda Caititus, Dona Joana viveu 108 anos e atravessou diferentes gerações, épocas e transformações. Filha de João Dantas de Araújo e Cecília Dantas de Araújo, foi a primogênita de uma família de 11 irmãos.

Sua vida foi profundamente ligada ao sertão, às suas paisagens e aos seus costumes. Na infância, conheceu as alegrias simples que marcaram gerações de sertanejos: correr pelo mato, tomar banho de rio e catar umbu nas árvores da caatinga.

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Dona Joana foi, acima de tudo, uma mulher trabalhadora. Costureira habilidosa, dedicou muitos anos de sua vida à confecção de roupas, exercendo um ofício que, naquele tempo, tinha enorme importância para as comunidades sertanejas. Vestidos para casamentos, roupas para festas, missas e batizados passavam pelas mãos cuidadosas de mulheres como ela.

Mas sua história também foi marcada pelo empreendedorismo e pela hospitalidade. Em uma fase da vida, viveu em Bendegó, distrito de Canudos, onde manteve uma pequena pousada. Mais tarde, retornou ao seu querido Caratacá e abriu sua própria hospedaria, recebendo pessoas de diferentes lugares e construindo amizades que ficaram marcadas pela sua simpatia e generosidade.

Mesmo sem ter filhos biológicos, Dona Joana construiu uma grande família através do amor. Acolheu Josenice e Aline, mãe e filha, que passaram a fazer parte de sua vida. Também encontrou nos descendentes dessa família, Ricardo e Raíssa, motivos de alegria e carinho.

Até os últimos anos de sua longa caminhada, Dona Joana impressionava pela lucidez e pela memória. Reconhecia as pessoas, recordava histórias e carregava consigo uma sabedoria construída ao longo de mais de um século de vida.

Entre seus ensinamentos, uma frase representava bem a sua maneira de enxergar o mundo:

“O trabalho nos dignifica.”

Era esse o conselho de uma mulher que fez do trabalho não apenas um meio de sobrevivência, mas também uma forma de construir sua dignidade, sua independência e sua própria história.

Aos jovens, Dona Joana recomendava que aprendessem um ofício, fossem úteis e jamais desistissem de seus sonhos. Palavras simples, mas carregadas da experiência de quem viveu intensamente cada etapa de uma existência extraordinária.

Hoje, o povoado de Caratacá se prepara para lhe dar o último adeus. Seu corpo será sepultado em sua terra, no município de Uauá, mas sua história permanecerá viva na memória daqueles que tiveram o privilégio de conhecê-la.

Dona Joana Dantas parte deixando saudades, ensinamentos e um legado que ultrapassa gerações.

Aos 108 anos, encerrou sua caminhada terrena, mas tornou-se ainda mais eterna na história de sua comunidade.

Adeus, Dona Joana.

Que sua memória continue viva em Caratacá, em Uauá e no coração de todos aqueles que aprenderam a admirar sua força, sua simplicidade, seu trabalho e sua longa e bela trajetória de vida.

Dona Joana Dantas não era apenas uma mulher centenária. Era um patrimônio vivo da memória de Uauá.

E patrimônios como ela jamais serão esquecidos.

Robson Rodrigues