Na região Norte do estado, onde os problemas da saúde pública se arrastam há décadas, tornou-se comum ver pacientes sendo atendidos em corredores de hospitais, submetidos a condições indignas e desumanas. O sistema de regulação, que deveria garantir agilidade e eficiência nos atendimentos, parece incapaz de enxergar o sofrimento de milhares de pessoas que dependem exclusivamente do SUS para sobreviver.
Em Uauá, essa realidade se apresenta diariamente diante dos nossos olhos. Um dos casos mais recentes é o da senhora Elvira Coelho da Silva Santos, moradora da comunidade de Testa Branca. Aos 86 anos de idade, ela foi internada no dia 8 de junho com um dos braços fraturado. A autorização da regulação só foi liberada semanas depois, com previsão de cirurgia apenas para o dia 30 de junho.
Isso significa que Dona Elvira será obrigada a permanecer mais de vinte dias internada, aguardando um procedimento que deveria ter sido realizado com urgência. Durante esse período, fica exposta aos riscos inerentes à longa permanência hospitalar, como infecções, agravamento do quadro clínico e sofrimento físico e emocional.
Diante dessa situação, algumas perguntas precisam ser feitas:
Qual é a real eficiência do atual sistema de regulação? Como uma pessoa de 86 anos, com um quadro grave e evidente necessidade de atendimento prioritário, pode esperar mais de vinte dias por uma cirurgia? Quantos outros pacientes estão enfrentando dramas semelhantes neste exato momento?
Outro problema que não pode ser ignorado é a superlotação crônica do Hospital Regional de Juazeiro. Há anos a unidade opera acima da capacidade, sem conseguir atender adequadamente toda a demanda da região. Por que o Governo do Estado ainda não ampliou significativamente a estrutura hospitalar do Norte da Bahia? Por que novos hospitais não são construídos e os já existentes não recebem investimentos compatíveis com a necessidade da população?
Ao mesmo tempo, observamos a facilidade com que recursos milionários são liberados para eventos festivos. Em 2025, apenas cinco dias de festejos juninos movimentaram quase R$ 5 milhões em recursos públicos para o São João de Uauá. Enquanto isso, a reforma do Hospital Municipal Dr. Jair Braga se arrasta há cerca de cinco anos. Segundo informações da própria Secretaria de Saúde, o município recebeu apenas R$ 600 mil do Governo do Estado para a obra.
A pergunta é inevitável: afinal, a saúde é ou não prioridade?
Recentemente participei da audiência pública de prestação de contas da Secretaria Municipal de Saúde de Uauá referente ao primeiro quadrimestre de 2026. Na ocasião, foram apresentados números que apontam mais de R$ 10 milhões em receitas destinadas à saúde municipal entre janeiro e abril.
Diante desses valores, a população tem o direito de perguntar: onde esses recursos estão sendo aplicados? Quais resultados concretos estão chegando à vida dos cidadãos? Como justificar tantas carências diante de investimentos tão expressivos?
A situação se agrava ainda mais quando observamos a ausência de saneamento básico adequado em diversas áreas do município. O acúmulo de lixo, a proliferação de moscas, mosquitos, baratas e outros vetores favorecem o aumento de infecções, viroses e diversas doenças evitáveis. A saúde pública não se limita aos hospitais; ela começa na prevenção, na limpeza urbana, no saneamento e na qualidade de vida da população.
Infelizmente, muitos cidadãos sentem-se reféns de um sistema marcado pela desigualdade de acesso. Há uma percepção crescente de que consultas, exames, internações e cirurgias dependem muitas vezes da influência política de quem solicita, e não exclusivamente da necessidade clínica do paciente. Quando isso acontece, a saúde deixa de ser um direito e passa a funcionar como um privilégio.
Os mais pobres, os idosos e os mais vulneráveis acabam sendo as maiores vítimas dessa realidade. São pessoas que dependem integralmente do serviço público e que, muitas vezes, enfrentam longas esperas, sofrimento prolongado e até a perda da própria vida por falta de atendimento oportuno.
A saúde pública não pode ser tratada como mercadoria, favor político ou instrumento eleitoral. Ela é um direito fundamental garantido pela Constituição e deve ser administrada com responsabilidade, transparência e respeito à dignidade humana.
As eleições se aproximam. Mais do que promessas, este é o momento de a população refletir sobre as prioridades dos seus governantes. A resposta deve vir das urnas, da fiscalização permanente e da cobrança por políticas públicas que coloquem a vida das pessoas acima de qualquer interesse político.
Porque, quando falta saúde, falta tudo. E nenhuma sociedade pode se considerar desenvolvida enquanto seus cidadãos continuam sofrendo nos corredores dos hospitais à espera de um atendimento que deveria ser um direito garantido.
Da redação
Robson Rodrigues
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