A década de 1970 representou um período de brilho e progresso para o município de Uauá. Desde a sua gênese, a história local foi marcada por intensos conflitos nos campos político, territorial e cultural. Desde os primeiros embates entre os povoadores portugueses e os povos originários, passando pela exploração do trabalho escravo com os remanescentes africanos, até episódios marcantes como a primeira batalha da Guerra de Canudos, em 1896, já nas primeiras residências da então Vila de Uauá.
No início do século XX, novos períodos de instabilidade atingiram a região, com a passagem de grupos revoltosos e o avanço do cangaço, que espalharam medo entre os moradores. A grande seca de 1932 e os conflitos políticos que a sucederam trouxeram ainda mais sofrimento ao nosso povo. Assim, praticamente todas as décadas que antecederam os anos 70 foram marcadas por perturbações e incertezas.
Mas a década de 1970 foi diferente. Foi um tempo especial. A política local encontrou certa estabilidade na liderança de José Borges Ribeiro, que promoveu avanços significativos na estrutura do município. Entre suas iniciativas, destacam-se a criação de cerca de 55 escolas em diversas regiões, a expansão da eletrificação rural, o apoio técnico aos produtores, a construção de obras hídricas e o incentivo à profissionalização da caprinovinocultura, incluindo a realização da primeira Exposição Nacional especializada em caprinos e ovinos.
Nesta fotografia, vemos o povoado de Lagoa do Pires nesse período tão simbólico. As cores, as expressões das pessoas e as vestimentas revelam um momento de esperança. Apesar de ainda estarmos no início de um processo de melhoria na infraestrutura, percebe-se um povo mais leve, como se os conflitos armados, as disputas territoriais e as grandes secas tivessem, ao menos parcialmente, sido superados.
Foi a partir da década de 70 que Uauá começou a deixar para trás os indicadores de medo, insegurança e escassez, iniciando uma trajetória de desenvolvimento social. Mesmo diante das limitações financeiras do Brasil, ainda sob regime militar, o município avançou graças às suas lideranças políticas, ao esforço coletivo do povo e à coragem daqueles que lutaram, muitas vezes com a própria vida, para erguer povoados como Lagoa do Pires e elevar Uauá a um patamar respeitável na realidade baiana.
Em minhas palestras em escolas e instituições, costumo provocar uma reflexão: como, com tantas limitações naquela época, conseguimos avançar tanto, enquanto hoje, diante de uma imensa disponibilidade de recursos tecnológicos e políticos, avançamos tão pouco?
Não há comparação entre os recursos disponíveis de antes e os de agora. Ainda assim, parece que, naquele tempo, o compromisso com o bem público era maior, enquanto hoje, muitas vezes, prevalecem interesses individuais.
Que esta fotografia sirva como símbolo da capacidade que já tivemos. Que nos lembrem que, apesar das limitações, a habilidade, a coragem e o amor pela Terra dos Vagalumes foram maiores do que os interesses pessoais daqueles que, um dia, estiveram à frente da administração desta terra.
Da redação
Robson Rodrigues
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