Entre os monumentos naturais de Uauá, destaca-se a Pedra do Olho d’Água, um impressionante monólito granítico localizado na comunidade de Testa Branca, a aproximadamente 22 quilômetros da sede do município.

Coordenadas geográficas: -9,9936715, -39,5532526

O local está aberto à visitação, desde que os visitantes comuniquem previamente as lideranças da comunidade.

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A origem do nome

O nome Pedra do Olho d’Água surgiu em razão de uma antiga nascente existente aos pés do monólito. Segundo os moradores mais antigos, quando os primeiros povoadores e vaqueiros chegaram à região, essa nascente mantinha água durante boa parte do ano, chegando a escorrer no período chuvoso.

Com o passar do tempo, o olho d’água foi aprofundado e transformado em uma pequena cacimba. Posteriormente, também foi construído um pequeno barreiro para armazenar a água que desce pelas encostas do monólito durante as chuvas.

Essa disponibilidade hídrica favoreceu o desenvolvimento de um pequeno bosque formado por espécies típicas da Caatinga, como baraúna, pau-d’arco, angico, catingueira, pau-de-pedra, caixão e diversas outras árvores de grande porte, especialmente na face leste da pedra.

Flora adaptada à rocha

As superfícies fraturadas do granito também servem de abrigo para diversas espécies de bromélias e plantas epífitas, entre elas a mangabeira-de-flecha e diferentes espécies de tillandsias. Essas plantas aproveitam a matéria orgânica acumulada nas fissuras da rocha — formada por poeira, folhas, esterco deixado pelas cabras e a umidade proporcionada pelo orvalho das madrugadas sertanejas.

Um laboratório geológico a céu aberto

A Pedra do Olho d’Água representa um dos mais importantes sítios geológicos do município de Uauá.

O grande monólito é constituído por rochas graníticas muito antigas que sofreram intenso metamorfismo ao longo de sua história geológica. Em praticamente toda a superfície observam-se belas estruturas migmatíticas, marcadas por faixas claras e escuras intensamente dobradas, registrando processos ocorridos nas profundezas da crosta terrestre há bilhões de anos.

Nos arredores também podem ser encontrados outros tipos de rochas, como quartzitos e diferentes litologias metamórficas associadas ao embasamento cristalino da região. Essas características fazem do local um excelente campo de estudos para pesquisadores das Ciências da Terra.

Fauna

A fauna é igualmente rica. Entre as aves observadas destacam-se pequenos pássaros típicos da Caatinga, além de corujas-buraqueiras, quéns-quéns e outras espécies adaptadas ao ambiente semiárido.

Durante os períodos chuvosos, quando o barreiro acumula água, também é possível observar aves aquáticas, como frangos-d’água, jaçanãs e patos, atraídas pela disponibilidade temporária de água.

A trilha até o cume

O acesso ao topo do monólito é feito por uma trilha localizada na face sul da pedra.

Embora relativamente curta, a subida exige bom preparo físico. A inclinação é acentuada, existem trechos com muitas pedras soltas e, já próximo ao cume, a vegetação dominada por macambira-de-flecha e outras bromélias torna o deslocamento mais difícil.

A trilha foi aberta pelos primeiros moradores da comunidade para recolher cabras e ovelhas que costumam dormir sobre o serrote.

Atualmente, ela também possui grande importância religiosa. Durante a Semana Santa, nas festividades de Nossa Senhora de Fátima e em outras datas especiais, moradores e peregrinos percorrem esse caminho para rezar, pagar promessas e viver momentos de espiritualidade junto ao cruzeiro instalado no alto da pedra.

Origem do nome da comunidade

Segundo os moradores mais antigos, o próprio nome da comunidade Testa Branca teria surgido em razão da forma do monólito.

Vista à distância, a pedra lembra uma enorme testa humana voltada para o céu, característica que acabou dando identidade ao lugar e permanecendo na memória coletiva da população.

A lenda da banda de rapadura

Entre as histórias mais conhecidas da comunidade está a famosa Lenda da Banda de Rapadura.

Conta-se que, há muitas décadas, um grupo de vaqueiros oriundos da região do Posto Vieira procurava gado nas proximidades da nascente. Durante a conversa surgiu um desafio: quem conseguisse subir a Pedra do Olho d’Água pela frente — justamente sua face mais lisa e inclinada — receberia como prêmio uma banda de rapadura.

Um dos vaqueiros, conhecido pela coragem, aceitou imediatamente o desafio.

Nos primeiros metros a subida parecia possível, mas, à medida que avançava, a inclinação aumentava drasticamente. Chegou um momento em que ele já não conseguia subir nem descer.

Desesperado, teria pedido aos companheiros que lhe dessem um tiro para evitar uma morte ainda mais dolorosa ao despencar da pedra. Ninguém teve coragem.

Sem alternativa, o vaqueiro decidiu deslizar lentamente pela superfície do granito. As asperezas e pequenas saliências da rocha rasgaram sua barriga, provocando graves ferimentos. Alguns moradores mais antigos afirmam que era possível ver até mesmo suas vísceras expostas.

Apesar da gravidade dos ferimentos, ele sobreviveu. A história atravessou gerações e tornou-se uma das mais conhecidas lendas do município de Uauá.

Um patrimônio que precisa ser preservado

A Pedra do Olho d’Água desperta o interesse de pesquisadores, estudantes, turistas, fotógrafos, peregrinos e amantes da natureza.

Alguns visitam o local para compreender sua história geológica; outros buscam conhecer a nascente, percorrer a trilha ou simplesmente contemplar uma das paisagens mais belas do sertão baiano.

Mais do que um grande bloco de granito exposto ao tempo, a Pedra do Olho d’Água representa um patrimônio geológico, ecológico, histórico, cultural e religioso de Uauá.

Sua preservação é fundamental para que as futuras gerações possam conhecer, estudar e valorizar um dos mais extraordinários monumentos naturais do município. Ao proteger esse sítio geológico, preservamos também parte da memória da Terra e da própria história do povo sertanejo.

 

Texto, fotos e ilustração: Robson Rodrigues