A manhã deste 22 de junho foi marcada por um dos momentos mais autênticos da cultura sertaneja. A 54ª Missa dos Vaqueiros de Uauá reuniu milhares de pessoas em torno da fé, da memória e da identidade de um povo que ajudou a construir a história do município justamente no ano em que a cidade celebra o seu centenário de emancipação política.

 

Uauá, a Terra dos Vagalumes, foi forjada pelo trabalho de homens e mulheres que, sob o sol inclemente da caatinga, ergueram casas, currais, cercas e todo o patrimônio material e cultural que conhecemos hoje. Foram os vaqueiros e sertanejos que transformaram estas terras pirilâmpicas em um território de resistência, trabalho e tradição.

  WhatsApp

 

Ao som das entoadas e aboios, a legião do couro percorreu as ruas da cidade até a Praça dos Vaqueiros, situada em frente à Igreja do Senhor do Bonfim, primeiro monumento coletivo edificado por Joana Francisca Ribeiro Rodrigues e seu esposo, Francisco Ribeiro, marco inicial da pequena povoação que daria origem à cidade de Uauá.

 

Mais do que uma celebração religiosa, a Missa dos Vaqueiros representa uma das maiores manifestações culturais do Nordeste. Durante cinco séculos, a figura do vaqueiro preservou tradições que se manifestam na vestimenta, na honra, na fé, na lealdade, no caráter e, sobretudo, na alma sertaneja.

 

Ser vaqueiro no século XXI ultrapassa limites geográficos, econômicos, sociais e tecnológicos. A legião do couro espalha-se por todo o sertão, mantendo viva uma herança que atravessa gerações. Na Praça dos Vaqueiros, milhares de pessoas montadas a cavalo ou a pé participaram da celebração, seguida da tradicional cavalgada pelas ruas da cidade, espetáculo aguardado por moradores e visitantes que se reúnem nas esquinas e avenidas para fotografar, cumprimentar e reverenciar os heróis do sertão.

 

Chamou atenção a presença de inúmeras crianças acompanhando seus pais e mães, algumas com apenas quatro ou cinco anos de idade, já encouradas e vestindo os trajes herdados de pais, avós e bisavós, demonstrando que a tradição continuará viva nas próximas gerações. Também foi marcante a participação das mulheres sertanejas e de visitantes vindos de diversos municípios da Bahia e de outros estados do Nordeste, consolidando o evento como uma das maiores expressões culturais do sertão, comparável em importância ao carnaval para muitas capitais brasileiras.

 

Entre as autoridades e lideranças presentes estavam deputados, prefeitos, vereadores e pré-candidatos, evidenciando a força política e social do homem e da mulher do campo. Ao longo de cinco séculos, as elites brasileiras sempre buscaram o apoio do sertão e de seus vaqueiros, reconhecendo a importância dessa gente simples e trabalhadora para a formação do país.

 

A celebração contou ainda com a presença do Frei Gilson o “padre-vaqueiro” de Curaçá, um dos maiores incentivadores das pegas de boi, vaquejadas e missas dos vaqueiros nos sertões da Bahia e Pernambuco. Após a missa e a cavalgada, os participantes seguiram para o Parque de Vaquejada de Uauá, onde encerraram o Dia do Vaqueiro com almoço, confraternização e festa especialmente preparada para os heróis da legião do couro.

 

A primeira Missa dos Vaqueiros em Uauá

 

A história da Missa dos Vaqueiros em Uauá começou em 22 de julho de 1972, quando foi realizada a primeira celebração na Praça São João Batista, presidida pelo padre Jaime, de Euclides da Cunha. Mais do que um ato religioso, o evento representou o reconhecimento à figura do vaqueiro, símbolo histórico da resistência e da ocupação dos sertões nordestinos.

 

Desde o século XVII, os vaqueiros desempenharam papel fundamental na expansão da pecuária, sustentando a economia colonial e enfrentando as duras condições impostas pela caatinga. A missa surgiu como espaço de valorização espiritual e cultural de uma categoria que moldou a identidade do Nordeste.

 

Entre os idealizadores e participantes da primeira celebração destacam-se Claudionor Ribeiro Gonçalves, João Silva Santana, José Rodrigues de Santana (Zé do Prequeté) e Diocleciano Cardoso da Silva, além de pioneiros como Moisés Barbosa, Zé Gordo, Nogueira, Jerônimo, José Milton Rodrigues, João de Deoclécio, Osmar, Josué, Mundinho de Enoque, Manoel de Oseas, João de Keller, Bibi, Joãozinho Cambaio, Israel da Cachoeira, Eronildes, Carlos Boiadeiro e Olímpio Cardoso Filho.

 

Nos anos seguintes, a celebração foi transferida para a Igrejinha do Senhor do Bonfim, às margens do Rio Vaza-Barris, local simbólico por representar o marco inicial da ocupação dos sertões através da pecuária extensiva. Posteriormente, foi criada a Praça dos Vaqueiros, no antigo malhador dos currais da família D’Ávila, área onde se originou a Fazenda Uauá.

 

Em 1980, com apoio da Câmara Municipal, o prefeito José Borges instituiu oficialmente o Dia do Vaqueiro, celebrado em 22 de julho, data que remete à primeira missa realizada em 1972. O evento cresceu ao longo das décadas e passou a receber vaqueiros de municípios como Andorinha, Canudos, Curaçá, Monte Santo e diversas outras regiões do Nordeste.

 

Da participação de cerca de 20 vaqueiros fundadores, a Missa dos Vaqueiros de Uauá passou a reunir mais de 900 participantes montados, transformando-se em um dos maiores símbolos da cultura sertaneja e em um patrimônio vivo da memória, da fé e da identidade do povo nordestino.