Nesta sexta-feira, 24 de julho de 2026, será inaugurada a Adutora Bendegó–Uauá, obra executada pela Embasa em parceria com o Governo do Estado da Bahia. Com aproximadamente 40 quilômetros de extensão, a nova adutora foi construída para fazer o abastecimento de água da sede do município e, segundo informações divulgadas pela Embasa, representa uma solução para os históricos problemas de desabastecimento enfrentados pela população.

Iniciada em 2025, a obra teve investimento estimado em R$ 76 milhões e será entregue em cerimônia que contará com a presença do presidente da Embasa, secretários de Estado e lideranças políticas da região.

A importância da obra é inquestionável. No entanto, por se tratar de um investimento público de grande porte, é natural que a sociedade apresente questionamentos sobre o projeto, sua execução, seus resultados e os impactos para o futuro do abastecimento de água em Uauá.

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Transparência e participação popular

No início deste ano, recebemos um convite do Conselho Social da obra para participar de uma reunião pública destinada à apresentação do projeto. O encontro ocorreu no auditório do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, às 14 horas. Em razão do horário e da falta de climatização do ambiente, a participação popular foi reduzida.

Estiveram presentes representantes de bairros como Lagoa, Vila dos Gomes e Alto do Conselheiro, além de alguns comunicadores e influenciadores locais.

Na ocasião, a equipe técnica da Embasa apresentou informações sobre a obra e respondeu a alguns questionamentos levantados pelos participantes.

 

Como funcionará o novo sistema?

Segundo os técnicos, a nova adutora, construída com tubulação de 500 milímetros de diâmetro, será responsável pelo abastecimento da sede de Uauá e, futuramente, também atenderá ao distrito de Lagoa do Pires, por meio de um projeto complementar.

Uma das informações que mais chamou a atenção foi a de que a atual adutora que transporta água da Caraíba Metais deverá ser desativada, passando o abastecimento do município a depender exclusivamente da água captada em poços profundos localizados na região de Bendegó, em Canudos.

Também foi informado que comunidades como Caldeirãozinho, Caldeirão da Serra e outras deverão ser abastecidas por sistemas de bombeamento a partir da sede de Uauá.

 

Qualidade da água

Durante a reunião, questionamos a qualidade da água proveniente dos poços. Um dos técnicos afirmou que se trata de uma água de boa qualidade e chegou a informar que, em um encontro posterior, levaria uma amostra para degustação pelos participantes.

Entretanto, também solicitamos acesso ao projeto técnico completo da obra, incluindo estudos sobre a qualidade da água e o funcionamento do sistema. Até o momento da publicação deste artigo, essa documentação não nos foi disponibilizada.

A divulgação desses estudos seria importante para ampliar a transparência e permitir que a população conheça melhor as características da água que passará a consumir.

 

Vazão: a principal dúvida

Outro ponto debatido foi a capacidade de abastecimento.

Segundo informações apresentadas durante a reunião, a adutora atualmente em operação fornece aproximadamente 24 litros de água por segundo para Uauá.

Já a nova adutora deverá operar inicialmente com cerca de 27 litros por segundo, representando um acréscimo de aproximadamente 3 litros por segundo.

Esse dado despertou dúvidas entre diversos participantes. Considerando que muitos bairros enfrentam períodos de até duas semanas ou mais sem abastecimento regular, parte da população questiona se esse aumento será suficiente para atender à demanda atual, especialmente diante da futura ampliação do sistema para outras localidades.

Esse é um aspecto que somente poderá ser avaliado com clareza após a entrada em operação do novo sistema e a divulgação de dados oficiais sobre sua capacidade e desempenho.

 

Comunidades cortadas pela adutora

Outro questionamento levantado diz respeito às comunidades por onde a adutora passa.

Moradores perguntaram por que localidades como Riacho de Pedra, Caratacá, Ipueira, Boa Vista, Sítio do Cariri e São Bento não receberão ligações de abastecimento, mesmo sendo atravessadas pela tubulação.

Na ocasião, não houve uma resposta conclusiva para essa questão.

 

Conselho Social

Também foram feitas observações sobre a atuação do Conselho Social da obra.

Alguns participantes relataram que o acompanhamento social começou quando a obra já estava praticamente concluída, reduzindo a possibilidade de diálogo com os moradores durante as fases mais impactantes da construção.

Ainda hoje é possível encontrar ruas com valas, desníveis, poeira e outros pontos que aguardam recuperação definitiva.

 

O debate continua

Nos últimos dias publicamos um vídeo sobre esse tema, que gerou ampla repercussão nas redes sociais e estimulou o debate entre os moradores de Uauá.

Este artigo tem o mesmo objetivo: contribuir para uma discussão responsável sobre uma obra pública de grande importância.

Espera-se que a Embasa, o Governo do Estado, a Prefeitura Municipal de Uauá, a Câmara de Vereadores e os órgãos de fiscalização prestem os esclarecimentos necessários, apresentando à população informações detalhadas sobre o projeto, a qualidade da água, a capacidade do sistema e os resultados esperados.

 

São Francisco ou poços de Canudos?

Outro tema levantado por profissionais consultados diz respeito à origem da água.

Segundo engenheiros ouvidos para esta reportagem, os quais iremos preservar a integridade , existe o entendimento de que investimentos adicionais poderiam viabilizar, em determinadas condições, uma alternativa de captação diretamente no Rio São Francisco. Por outro lado, a opção adotada pelo projeto foi utilizar os poços profundos da região de Bendegó, decisão que certamente considerou fatores técnicos, econômicos e operacionais.

Esse é um debate legítimo e que merece ser conduzido com base em estudos técnicos e ampla transparência.

A Adutora Bendegó–Uauá representa um dos maiores investimentos em infraestrutura hídrica da história recente do município e desperta esperança em milhares de famílias que convivem há anos com o abastecimento irregular.

Ao mesmo tempo, a população tem o direito de conhecer todos os detalhes do empreendimento, acompanhar sua operação e cobrar que o serviço prestado corresponda ao investimento realizado.

Mais do que inaugurar uma obra, é fundamental garantir que ela cumpra sua finalidade: levar água de forma contínua, segura e com qualidade para todos os uauaenses.

 

Uauá, Bahia, 23 de julho de 2026.

Da redação
Robson Rodrigues