A liberdade é um luxo do qual pouquíssimos homens terão o privilégio de desfrutar. Não importa a posição social, econômica ou racial. Não importa onde se viva, quanto se tenha ou quanto se saiba. Ser verdadeiramente livre é uma condição raríssima.

 

E não estou falando aqui da liberdade de expressão, da liberdade de escolher com quem se casar ou da liberdade de escolher uma profissão. Essas são conquistas importantes da vida em sociedade, mas existe uma liberdade ainda mais profunda, silenciosa e difícil de alcançar: a liberdade de ser você mesmo.

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Poucas pessoas chegam a esse lugar. Vivemos em uma época em que somos permanentemente convidados a representar alguma coisa. As redes sociais, a televisão, a publicidade e a aceleração vertiginosa da informação criaram um mundo no qual quase tudo é transformado em aparência. Somos estimulados a mostrar quem somos antes mesmo de descobrirmos quem somos.

 

O indivíduo já não pergunta apenas: quem sou eu? Pergunta então: como os outros vão me enxergar? E talvez essa seja uma das formas mais sofisticadas de prisão do nosso tempo.

 

A pessoa começa a escolher a roupa pensando na fotografia que publicará. Viaja pensando naquilo que poderá mostrar. Compra pensando no que aquilo dirá sobre ela. Escolhe lugares, amizades, relacionamentos e até opiniões levando em consideração a aprovação de uma plateia invisível.

 

Aos poucos, deixa de viver a própria vida para construir uma versão aceitável de si mesma.

 

E é justamente aí que a liberdade começa a desaparecer. Porque ser livre custa. E não custa pouco. Não estou falando de dinheiro, propriedades, joias ou qualquer outro patrimônio material. Estou falando de um preço muito mais difícil de pagar: o preço de assumir a própria existência.

 

Ser livre exige respeito por si mesmo, respeito pelo outro e compreensão do lugar que ocupamos no universo. Exige reconhecer que somos seres limitados pela matéria, pelo tempo, pelo corpo e pelas circunstâncias, mas que, ao mesmo tempo, carregamos dentro de nós uma dimensão de consciência capaz de imaginar o infinito, questionar a própria existência e buscar aquilo que está além de nós.

 

Existe um grande paradoxo na liberdade. Quando finalmente assumimos quem somos, começamos também a compreender melhor as consequências das nossas escolhas. Percebemos que nenhuma existência está isolada. Cada indivíduo é parte de uma rede de relações, afetos, responsabilidades e consequências.

 

A liberdade, portanto, não significa fazer tudo aquilo que queremos. Talvez signifique algo muito mais difícil: ter consciência suficiente para escolher aquilo que faremos, mesmo quando ninguém estiver nos obrigando.

 

E é justamente nesse ponto que surge a pergunta mais incômoda: até que ponto somos fortes o suficiente para suportar o peso de sermos livres?

 

Porque é muito mais confortável obedecer. Quando alguém decide por nós, também assume parte da responsabilidade pelos resultados. Quando seguimos a multidão, podemos esconder nossas escolhas dentro das escolhas dos outros. Quando repetimos aquilo que todos repetem, não precisamos enfrentar o desconforto de pensar por conta própria.

 

A liberdade nos retira essas desculpas. Ela nos coloca diante do espelho. E talvez por isso tanta gente tenha medo dela. Nossa existência é construída por escolhas. Algumas pequenas, quase imperceptíveis; outras capazes de alterar completamente o curso de uma vida. Escolhemos desde a infância, muitas vezes sem perceber, até o momento em que decidimos colocar um anel em um dos dedos e formalizar uma vida compartilhada com outra pessoa.

 

Mas há algo que frequentemente esquecemos: toda escolha também é uma renúncia. Quando escolhemos um caminho, abandonamos outros. Quando escolhemos alguém, deixamos de viver inúmeras possibilidades. Quando escolhemos uma profissão, uma cidade, uma família ou uma maneira de enxergar o mundo, estamos também delimitando aquilo que não seremos.

 

Talvez a maturidade seja justamente aprender a conviver com aquilo que deixamos para trás. E, no mundo dominado pelos influenciadores, pelos algoritmos e pela indústria da atenção, somos constantemente convidados a desejar a vida dos outros.

 

Já não basta vender um produto. É preciso vender um estilo de vida. Não basta dizer o que devemos comprar. É preciso dizer o que devemos comer, beber, vestir, onde devemos viajar, o que devemos admirar, o que devemos rejeitar, quem devemos seguir, contra quem devemos lutar e, em alguns casos, até aquilo em que devemos acreditar.

 

As grandes marcas descobriram algo extraordinário sobre o ser humano: não vendemos somente objetos, compramos significados. Compramos a promessa de pertencimento, a sensação de que estamos participando de alguma coisa, muitas vezes, uma identidade pronta.

 

E assim o indivíduo vai sendo transformado em um recipiente preenchido por rótulos. Um pouco da família, um pouco da religião, um pouco da política, um pouco da publicidade, um pouco dos influenciadores, um pouco daquilo que os amigos esperam e muito daquilo que o algoritmo decidiu colocar diante de seus olhos.

 

No final, resta uma pergunta desconfortável: quanto daquilo que chamamos de “eu” realmente nasceu de nós? Talvez ser livre seja justamente começar a retirar essas camadas. Diminuir os ruídod. Desconfiar das certezas que recebemos prontas. Perceber aquilo que fazemos apenas porque todos fazem. E, lentamente, descobrir o que permanece quando retiramos os aplausos, os títulos, os rótulos, os seguidores, o dinheiro, a profissão, a ideologia e a necessidade permanente de aprovação.

 

Talvez ali, naquele lugar quieto onde não precisamos provar nada a ninguém, comece a verdadeira liberdade. Ser livre talvez não seja conquistar o direito de fazer tudo. Quiçá seja conquistar a coragem de não precisar ser aquilo que o mundo decidiu que deveríamos ser.

 

E essa talvez seja a maior liberdade, e também o maior luxo, que um ser humano pode alcançar.

 

Da redação

Robson Rodrigues