Se as décadas de 1960 e 1970 consolidaram os conjuntos musicais e os bailes dançantes, os anos seguintes assistiriam à música ocupar definitivamente as ruas de Uauá.

 

Era o tempo em que o carnaval começava a ganhar novas formas em diversas cidades do interior baiano. Influenciados pelos trios elétricos de Salvador e pela crescente popularização das festas de rua, jovens uauaenses decidiram criar um movimento que marcaria para sempre a história cultural do município.

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O Surgimento do Trio Jangada

 

Em 1984, nasceu o Trio Jangada, um dos mais importantes símbolos do carnaval de Uauá.

 

O projeto surgiu do entusiasmo de músicos e amigos que já participavam da intensa vida cultural da cidade e que sonhavam em levar a música para as ruas, aproximando ainda mais artistas e população.

 

O Trio Jangada reuniu integrantes de diferentes grupos musicais que haviam se destacado nos anos anteriores, dando continuidade ao trabalho iniciado pelos conjuntos que animavam os clubes recreativos.

 

Entre seus participantes estavam José Jakson Gomes de Carvalho (Trotrô), José Deusimar Cardoso dos Santos (Neném de Betinha), João Cardoso dos Santos (Joanito), Jucemar Cardoso dos Santos (Cemarzinho), José Loiola Marques (Zé Guará), Valfredo Loiola Marques, José Olímpio Cardoso Silveira (Zé Olímpio Preá), Eugênio Ribeiro de Andrade, Jerônimo Rodrigues Neto, Deda, Valter da Pedra Grande e Alberto Gonçalves (Zé Alberto de Seu Bertino).

 

Mais do que músicos, eram homens profundamente envolvidos com a cultura popular e movidos pelo desejo de fortalecer o carnaval uauaense.

 

Um Trio Feito de Criatividade

 

Como acontecia em muitas cidades do interior, os recursos eram limitados.

 

O primeiro Trio Jangada foi montado sobre um caminhão-tanque pertencente a Chicão, solução simples, mas suficiente para colocar a música nas ruas e levar alegria aos foliões.

 

Posteriormente, percebendo o sucesso da iniciativa, Ranulfo Mendes (Veinho) decidiu investir no projeto e adquiriu o veículo que passaria a transportar definitivamente o trio.

 

Esse gesto demonstrava, mais uma vez, o compromisso de Veinho com o fortalecimento da música local. Sua participação ultrapassava a condição de músico; era também incentivador e articulador de iniciativas culturais que marcaram sua geração.

 

Durante muitos anos, o Trio Jangada tornou-se presença indispensável no carnaval de Uauá, animando foliões e contribuindo para consolidar uma tradição que permanece viva na memória da população.

 

A Transformação do Carnaval

 

Com o passar do tempo, o carnaval uauaense cresceu.

 

Assim como ocorria em outras cidades baianas, começaram a surgir blocos organizados a exemplo do Bloco da Maisena, das Cabritas e, posteriormente, blocos comerciais com a venda de abadás.

 

O poder público passou a investir mais intensamente na realização da festa, ampliando sua estrutura e trazendo atrações de diferentes regiões.

 

Essas mudanças contribuíram para tornar o carnaval maior e mais conhecido, mas também modificaram parte de sua dinâmica original.

 

Mesmo diante dessas transformações, o Trio Jangada permaneceu como símbolo de uma época em que a criatividade, a amizade e o espírito comunitário eram os principais motores da festa.

 

As Bandas de Sete de Setembro

 

Enquanto o carnaval se fortalecia, outro importante movimento musical ganhava destaque em Uauá.

 

Durante as décadas de 1980, 1990 e 2000, as tradicionais bandas de Sete de Setembro viveram um de seus períodos mais brilhantes.

 

Os desfiles cívicos transformavam-se em grandes acontecimentos populares.

 

Centenas de pessoas ocupavam as ruas da cidade para assistir às apresentações das bandas do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora e do Colégio Estadual Senhor do Bonfim, instituições que protagonizavam uma saudável disputa pela preferência do público.

 

Cada desfile era aguardado com ansiedade.

 

Os uniformes impecáveis, os instrumentos reluzentes, a disciplina dos integrantes e a qualidade das apresentações despertavam orgulho em toda a comunidade.

 

Para muitos jovens, integrar uma dessas bandas representava uma das maiores realizações da vida escolar.

 

A Era das Fanfarras

 

No final da década de 1990 e ao longo dos anos 2000, as tradicionais bandas evoluíram para grandes fanfarras, entre elas: FANAC, FAMGE, FRANCESB , FANCENSA.

 

Novos instrumentos foram incorporados, os arranjos tornaram-se mais elaborados e as apresentações ganharam coreografias e maior complexidade técnica.

 

Uauá passou a sediar importantes encontros de fanfarras, recebendo grupos de diversas cidades da Bahia.

 

As fanfarras locais conquistaram reconhecimento regional e importantes premiações, projetando o nome do município para além de suas fronteiras.

 

Mais importante do que os troféus, entretanto, foi o legado deixado por esse movimento.

 

Centenas de crianças e adolescentes aprenderam música por meio das bandas escolares.

 

Muitos desses jovens seguiram carreira artística, passaram a integrar bandas profissionais ou tornaram-se professores de música, perpetuando um ciclo iniciado ainda nos tempos dos antigos mestres dos pífanos.

 

Uma Cidade que Aprendeu a Fazer Música

 

Ao olhar para essa trajetória, percebe-se que a história musical de Uauá jamais pertenceu apenas aos grandes artistas.

 

Ela foi construída também pelos estudantes que desfilaram nas bandas escolares, pelos músicos anônimos que tocaram nos carnavais, pelos voluntários que montaram palcos, carregaram instrumentos e ajudaram a manter vivas as festas populares.

 

Cada geração acrescentou uma nova página a essa história.

 

Dos pífanos às fanfarras, das procissões aos trios elétricos, dos clubes recreativos às grandes festas de rua, a música tornou-se uma das mais importantes expressões da identidade cultural uauaense.

 

Era chegado o momento de uma nova geração assumir esse legado e conduzir a música de Uauá para o século XXI.

 

Rita Ribeiro

Robson Rodrigues

Pedro Peixinho

Jackson Trotrô