Ao iniciar o século XXI, a música de Uauá atravessava mais um momento de transformação.
O forró tradicional permanecia vivo nas festas populares, nas alvoradas e nos encontros familiares. Ao mesmo tempo, uma nova sonoridade conquistava o Nordeste. O chamado forró eletrônico dominava as rádios, as casas de espetáculo e os grandes eventos, impulsionado por bandas como Mastruz com Leite, Calcinha Preta, Magníficos, Limão com Mel, Cavaleiros do Forró e, pouco tempo depois, Aviões do Forró.
A juventude uauaense acompanhava atentamente essa renovação musical. Entretanto, entre os artistas locais surgia também uma preocupação: como dialogar com as novas tendências sem perder a identidade construída ao longo de tantas gerações?
Foi nesse contexto que nasceu um dos projetos musicais mais importantes da história recente de Uauá.
O Nascimento do Forrozão Bem no Íntimo
No ano 2000, o jovem Jorge Trindade idealizou a formação de uma banda que unisse a força do forró contemporâneo ao respeito pela tradição musical do município.
Para concretizar esse projeto, reuniu um grupo de jovens músicos liderados por Renan Mendes, talentoso sanfoneiro e produtor musical, filho de Ranulfo Mendes (Veinho), um dos grandes mestres da música uauaense.
Mais do que criar uma nova banda, o objetivo era construir um projeto artístico que representasse Uauá dentro da nova realidade musical do Nordeste.
Assim nasceu o Forrozão Bem no Íntimo.
Uma Banda com Identidade Própria
Entre 2000 e 2007, o grupo percorreu diversas cidades da região, conquistando espaço em festas populares, eventos culturais e casas de espetáculo.
Seu repertório refletia exatamente a proposta que inspirou sua criação.
Ao lado dos grandes sucessos do forró eletrônico que dominavam o mercado musical, o Forrozão Bem no Íntimo fazia questão de preservar a memória musical de Uauá.
As composições de Sabino Marques (Cavachão) passaram a integrar os CDs e as apresentações da banda, sendo interpretadas por Cláudio Barris, cuja voz se tornaria uma das principais responsáveis por aproximar as novas gerações da obra do compositor.
Enquanto muitas bandas buscavam apenas reproduzir os sucessos nacionais, o Bem no Íntimo transformou a música uauaense em parte de sua identidade artística.
O Reconhecimento do Público
A resposta do público foi imediata.
O Forrozão Bem no Íntimo tornou-se uma das bandas de maior prestígio da região, realizando apresentações que marcaram época.
Em Uauá, alcançou um feito que permanece vivo na memória popular.
As apresentações no Brida’s Clube e no Visão Mega Show registraram as maiores bilheterias da história dessas casas de espetáculo.
Pela primeira vez, consolidou-se entre os moradores uma expressão que seria repetida por muitos anos:
“Um santo fez milagre em casa.”
A frase traduzia o orgulho da população ao ver uma banda genuinamente uauaense conquistar grande sucesso diante do próprio público.
Uma Construção Coletiva
Como toda grande realização cultural, o Forrozão Bem no Íntimo foi resultado do esforço coletivo de muitas pessoas.
Entre elas destacam-se Ranulfo Mendes (Veinho), cujo apoio foi decisivo desde os primeiros passos do projeto; Renan Mendes, responsável pela direção e produção musical; Silvani, principal voz da banda durante grande parte de sua trajetória; e Cláudio Barris, intérprete das canções tradicionais que ajudaram a preservar o legado musical de Uauá.
Ao lado deles estiveram diversos músicos instrumentistas do município, além de amigos, colaboradores e empresários locais que acreditaram no projeto e contribuíram para sua consolidação.
Apesar do reconhecimento popular alcançado ao longo de mais de seis anos de atividades, a banda jamais recebeu apoio institucional do poder público municipal.
Ainda assim, permaneceu na estrada graças ao entusiasmo de seus integrantes, ao incentivo da comunidade e, principalmente, ao carinho do público.
Um Novo Capítulo da Música Uauaense
O Forrozão Bem no Íntimo representou muito mais do que uma banda de forró.
Sua maior contribuição foi demonstrar que era possível dialogar com as tendências musicais contemporâneas sem abandonar as raízes culturais do município.
Ao levar para os palcos as composições de Cavachão, ao valorizar músicos locais e ao projetar o nome de Uauá para outras cidades da região, a banda reafirmou um princípio que acompanha toda a história musical da Terra dos Vagalumes: a verdadeira inovação nasce quando se respeita a própria identidade.
Dessa forma, o Forrozão Bem no Íntimo passou a integrar, com mérito, a longa trajetória iniciada pelos antigos mestres dos pífanos, continuada pelos sanfoneiros, pelos conjuntos musicais, pelos trios elétricos e pelas fanfarras.
Era a prova de que a música de Uauá continuava viva, reinventando-se sem esquecer de onde veio.
Da redação
Robson Rodrigues
Jorge Trindade
Silvani Ribeiro

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