Se as primeiras sonoridades do sertão nasceram da oralidade dos povos originários e dos aboios dos vaqueiros, a primeira manifestação musical organizada de Uauá surgiu no início do século XX, por meio dos pífanos.

 

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Foi em 1911, durante as celebrações pela instalação do Cruzeiro na praça que hoje conhecemos como Praça São João Batista, que um acontecimento marcaria para sempre a história cultural do então distrito de Uauá, pertencente ao município de Monte Santo.

 

Na ocasião, a Banda de Pífanos Kalumbi, vinda de Monte Santo, foi convidada para abrilhantar a cerimônia religiosa. O som das tabocas, acompanhado pelas caixas e pelos tambores, ecoou pelas ruas da pequena povoação, despertando a curiosidade e o encantamento dos moradores.

 

Entre aqueles que assistiam à apresentação encontrava-se Vicente José Barbosa, homem de grande habilidade manual, espírito observador e profundo interesse pelas manifestações populares.

 

Fascinado pela sonoridade daqueles instrumentos, Vicente não se limitou a admirar o espetáculo. Observou atentamente a construção dos pífanos, as técnicas utilizadas pelos músicos e a forma como cada instrumento dialogava com os demais. Poucos meses depois, utilizando os conhecimentos adquiridos pela observação e a criatividade que lhe era característica, reproduziu os instrumentos e organizou a primeira Banda de Pífanos de Uauá.

 

Nascia, assim, a primeira formação musical organizada de que se tem notícia no município.

 

Compunham aquele grupo pioneiro o próprio Vicente José Barbosa, Dionísio de Benícia, conhecido como Dionizão, Quintino, também chamado de Jonas Cabaça, e Tem-Tem, pai de Liocó.

 

Mais do que um conjunto musical, aquela banda tornou-se parte da vida religiosa da comunidade. Suas apresentações estavam ligadas, principalmente, às celebrações em honra ao Senhor do Bonfim, padroeiro do então distrito de Uauá. As procissões, novenas e demais festividades realizadas na pequena capela localizada às margens do Ipiranga dos Tapuias passaram a contar com a presença constante dos pífanos, cuja sonoridade se confundia com a própria devoção do povo.

 

O exemplo de Vicente José Barbosa rapidamente inspirou outras comunidades.

 

Na Serra do Sobrado, seu Caboclo, pai de João de Caboclo, organizou uma nova banda de pífanos, fortalecendo essa tradição na zona rural. Da mesma forma, os grupos de Lagoa do Pires passaram a animar reisados, festas religiosas e, especialmente, os festejos de São João, contribuindo para consolidar uma manifestação cultural que atravessaria gerações.

 

Após a morte de Vicente José Barbosa, os instrumentos da primeira banda foram levados para Lagoa do Pires, onde ficaram sob os cuidados de seu Anísio. Ali foi formado um novo grupo, garantindo a continuidade da tradição iniciada décadas antes.

 

Outra importante referência surgiu na Serra da Canabrava, onde o mestre Chicão organizou uma banda de pífanos que se tornou símbolo da resistência cultural sertaneja. Mais do que preservar o repertório tradicional, o mestre dedicou-se à formação de novas gerações de músicos. Até os dias atuais, mantém vivo um grupo de pífanos formado por crianças, demonstrando que a cultura somente permanece viva quando é transmitida de pais para filhos e de mestres para aprendizes.

 

Mais tarde, São Paulinho e Poço do Vieira também formariam seus próprios grupos, que inclusive atuam se apresentando nos 9 dias dos festejos Juninos do São João de Uauá. Nos dias de hoje, um projeto do Professor Cid Fiuza está lançando documentário e apresentações com os estudantes da Escola Municipal Maria Menezes, na sede de Uauá. As próprias crianças fazendo música com os instrumentos que eles mesmo fabricaram.

 

A Música Religiosa e o Crescimento do Distrito

 

Enquanto os pífanos se consolidavam como a principal expressão musical popular, Uauá também vivia um período de crescimento religioso e urbano.

 

Em 1923, foi criada a Paróquia São João Batista, iniciativa conduzida pelo padre João do Prado, vindo de Euclides da Cunha, que substituiu Senhor do Bonfim, o então padroeiro, por São João Batista. A construção da igreja matriz e o fortalecimento das festividades religiosas contribuíram para ampliar a participação popular nas celebrações, aumentando também o número de integrantes das bandas de pífanos.

 

Pouco a pouco, a música passou a ocupar lugar central na vida da comunidade.

 

As alvoradas, as passeatas religiosas, a entrega dos ramos, as procissões e as festas juninas incorporaram definitivamente os sons das tabocas, das caixas e das zabumbas. A música deixava de ser apenas um elemento de celebração para transformar-se em um importante símbolo da identidade cultural de Uauá.

 

Essa tradição permanece viva até os dias atuais.

 

Todos os anos, entre os dias 15 e 24 de junho, quando têm início as festividades de São João Batista, jovens, adultos e idosos percorrem as ruas da cidade acompanhando os pífanos nas tradicionais alvoradas. Este ano em especial, estreou o Alvoradeiro de Alto, um monumento musical que traduz o fim do Uauá velho para o início do Uauá novo, mantendo-se as tradições musicais. Mais do que uma manifestação artística, trata-se de um patrimônio cultural transmitido ao longo de mais de um século, mantendo viva a memória dos pioneiros que fizeram da música uma das maiores expressões da identidade uauaense.

 

Bosco de Alto

Gildemar Sena

Robson Rodrigues

 

Foto: Robson Rodrigues