As décadas que sucederam a emancipação política de Uauá marcaram o início de uma nova fase de sua história musical. Sem abandonar a tradição dos pífanos e das celebrações religiosas, a população passou a incorporar novos instrumentos, novos ritmos e novas formas de fazer música.
Um dos protagonistas dessa transformação foi Alto Barbosa, filho de Vicente José Barbosa, pioneiro da primeira Banda de Pífanos de Uauá.
Seguindo o exemplo do pai, Alto Barbosa manteve viva a tradição musical da família, mas ampliou seus horizontes ao adquirir um pé-de-bode, instrumento que se tornaria um dos grandes símbolos da cultura nordestina.
Ao redor da sanfona começaram a reunir-se músicos que tocavam violão, pandeiro, clarinete, triângulo e zabumba. Dessa união nasceram novos conjuntos que animavam novenas, festas de padroeiros, casamentos, batizados e as tradicionais festas juninas.
Entre os músicos que se destacaram nesse período estavam nomes como Chico Dorope, Pé Queimado, Dionísio, Mané de Senhora, e diversos outros artistas populares que ajudaram a consolidar a música como parte inseparável da vida cotidiana de Uauá.
Já não eram apenas os pífanos que conduziam as celebrações. A sanfona passava a ocupar um lugar de destaque, acompanhando um repertório formado por xotes, baiões, marchas, arrasta-pés e músicas tradicionais que atravessariam gerações.
A Chegada do Rádio
Entre as décadas de 1930 e 1950, outro acontecimento modificou profundamente o universo musical da população: a chegada do rádio.
Pela primeira vez, os moradores do sertão passaram a ouvir, com frequência, artistas de diferentes regiões do Brasil. As vozes que antes pareciam distantes agora atravessavam a caatinga por meio das ondas do rádio, levando informação, entretenimento e, sobretudo, música.
Os programas radiofônicos difundiam sambas, valsas, boleros, músicas sertanejas, canções nordestinas e, mais tarde, os sucessos de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e tantos outros intérpretes que contribuíram para transformar a música popular brasileira.
Sem substituir as tradições locais, o rádio ampliou os horizontes culturais dos uauaenses e inspirou novos músicos, que passaram a aprender repertórios cada vez mais variados.
A Música Religiosa e o Primeiro Coral
Enquanto a música popular se fortalecia, a Igreja Católica continuava exercendo papel fundamental na formação musical da comunidade.
Entre as figuras mais importantes desse período destaca-se o padre Maximiliano Miguel Fox, cuja atuação ultrapassou a dimensão religiosa.
Sensível ao valor educativo da música, ele fundou o primeiro coral de Uauá, introduzindo crianças e jovens no universo do canto coral e da música litúrgica.
Sob sua orientação, muitos uauaenses tiveram o primeiro contato com noções de afinação, harmonia, disciplina musical e canto coletivo. Mais do que formar cantores para as celebrações religiosas, o coral tornou-se uma verdadeira escola de música, contribuindo para despertar talentos que mais tarde participariam de bandas, conjuntos e outras manifestações culturais do município.
A influência do padre Maximiliano permaneceria por muitos anos, demonstrando que a música também era instrumento de educação, convivência e formação humana.
Os Clubes Recreativos e a Vida Social
À medida que Uauá crescia, surgiam também novos espaços de convivência onde a música ocupava lugar central.
Entre eles destacou-se o tradicional Clube de Anita, considerado um dos mais antigos da cidade. Vieram depois o Forró do Chico, o Clube de Waltércio, o conhecido Forró de Lau — animado por uma orquestra dirigida pelo maestro Lau, natural de Belém de São Francisco, que se apresentava principalmente durante os festejos juninos — e diversos outros espaços que marcaram época.
Nas décadas seguintes surgiriam ainda o Som de Cristal, o Pirilampos Bar, a Discoteca Brilho do Sol, o Brida’s, a AABB, a Associação 14 de Março, o La-Bemtivi, os Quiosques, o Visão Mega Show, o Clube Aquático Lux, o Cila, o Espaço 10 e tantos outros locais que fizeram e fazem parte da memória afetiva de várias gerações.
Nesses ambientes, a música deixou de estar restrita às festas religiosas e passou a integrar também os momentos de lazer, amizade e confraternização. Bailes, forrós, serestas e apresentações de conjuntos musicais tornaram-se parte da vida social da cidade.
Cada clube possuía sua atmosfera, seu público e seu repertório, mas todos tinham algo em comum: a música era o elemento que reunia as pessoas, fortalecia amizades e criava lembranças que permanecem vivas até os dias atuais.
Ao lado das procissões, das alvoradas e das festas de padroeiro, esses espaços ajudaram a formar a identidade musical de Uauá, preparando o terreno para o surgimento de uma nova geração de músicos, conjuntos e compositores que transformariam definitivamente a cena cultural do município nas décadas seguintes.
Na próxima parte você vai conhecer um pouco mais da história dos mestres da música de Uauá. Até lá.
Bosco de Alto
Basílio Gomes
Gildemar Sena
Pedro Peixinho
Robson Rodrigues


0 Comentários